Dia 6 - Dentro da noite branca
Meus amigos, que noite! Como havia dito, domingo nao faria nada durante o dia, como forma de descansar um pouco depois de tanta camelagem sob o sol do Norte. Dito e feito, fiquei de bobeira em casa, lendo e vendo noticias do Brasil. So sai pra dar uma corrida no parque e ver a russada curtindo o domingo de sol. Ao final da tarde, comecei a me preparar para o meu programa noturno, cujo roteiro era: bale no Mariinsky, jantar, e caminhada noturna pelas margens do Rio Neva.
Tudo comecou bem (quando o sujeito escreve isso, e que algo vai dar errado no final da historia, ne?), pois o sol sumiu nas nuvens e pude andar calmamente ate o metro na minha beca especial (pois e, achei que a ocasiao pedia um Joazinho mais formal, com blazer, sapato e camisa social). Saltei na estacao mais proxima do teatro, e fiz a opcao de ir a pe, ja que nao havia calor. Ok, so que no caminho uma das pontes que deveria atravessar estava fechada para filmagem, entao tive que dar uma volta bem maior do que prevista. Isso me deixou nervoso, neurotico e angustiado, que sao tres condicoes bem comuns para os que me conhecem. Claro que me perdi, e tive que pedir duas vezes orientacoes na rua, ate achar o caminho. Nesta altura, chovia e comecei a correr com medo de perder o horario ou entrar em filas gigantescas. La estava eu, de `conjunto social`, correndo pateticamente sob a chuva de Petersburgo. Ao chegar no Teatro, olhei para o relogio com ansiedade (comum tambem, ces sabem), e ainda faltava uma hora para o inicio do espetaculo!!! Eu sei, eu sei, mas nao consigo evitar...
Entrei no teatro, cujos corredores internos e hall sao bem menos impressionantes do que nosso Municipal. Porem, o auditorio principal e fantastico, ricamente decorado e com uma boca de cena imensa e um belissimo painel. Meu lugar era excelente, seria o equivalente ao balcao nobre no Rio, a esquerda da plateia, proximo dos camarotes.
Eu nao sou um conhecedor de danca (na verdade, conheco bem pouca coisa, mas a gente da um enrolada), devo ter ido a tres bales no maximo. A obra era La Baladyere, bale russo montado pela primeira vez em 1900, com 3 atos e 3 horas de duracao. Lendo o programa, vi que era a estreia de um novo primeiro bailarino, um sujeito chamado Kim Kimi. Mas, quem me chamou a atencao foi a primeira bailarina, uma tal Oxana. O braco dela aberto deve ter uns 2 metros de comprimento, mas ela conseguia se mover com leveza e flexibilidade. Achei a musica excepcional, e o ato final apoteotico, com a representacao de um sonho de um dos personagens e uma coreografia lenta e hipnotica com quase 30 bailarinas em cena.Bonito pra cacete.
Na saida, comecei uma camelagem atras de restaurante. Tinha anotado alguns, mas um ja estava fechado (passava das 23 horas). Depois de dar uma rodada, achei justamente o que tinha achado mais simpatico, o `Idiot`, nomeado assim em homenagem ao livro de Dostoievsky. Extremamente aconchegante, com estantes de livro, mesas pequenas, luz de velas e uma boa area de fumantes (que, na verdade, era a melhor parte do estabelecimento rs). Estava bem vazio, e me ofereceram um copinho de vodka `por conta da casa`. Eu mesmo pedi 2 tacas de Bordeaux, e bati uma massa muito boa. Sai de espirito elevado, e me dirigi para a margem do Rio Neva para assistir as pontes se abrindo na madrugada. Sim, a partir de 1 e 30 da matina as diversas pontes que cruzam o Rio se abrem por um tempo, para a passagem dos navios maiores. Durante o verao, com sol ate mais tarde, e um espetaculo apreciado pela turistada e pelos locais.
No comeco, foi bem divertido andar meia-noite e meia pelas ruas quase desertas, numa penumbra inusitada, sob um cel azul-escuro. Os predios que via de dia sao todos iluminados, e o cenario e bem impressionante. Vi logo de cara uma das pontes levantadas, quase em frente ao Hermitage, e fui andando para leste pelo rio, na direcao de minha casa. Muita gente fazendo o mesmo pelas margens, familias inteiras, japoneses etc. Parei em frente a Ponte da Trindade e fiquei ali em frente esperando ela `subir`. Acho que esperei quase uns 40 minutos, tirei umas fotos quando ela levantou, e fiquei ali me divertindo com o engarrafamento de barcos lotados de turistas, que costumam gostar de passar por baixo da ponte no momento derradeiro...
Ai comecou a parte mais dificil da noite. Tomei o rumo de casa pela margem do Neva. O plano era ir andando tranquilamente, curtindo a noite branca, ja que o trajeto e longo, como sabem. Porem, fiz isso exatamente no momento em que realmente fica quase escuro (entre 1 e 3 da matina). E, assim que passei a ultima ponte famosa, as ruas ficaram completamente desertas. De repente, me vi andando largas avenidas onde quase nao havia gente, com a `noite branca` ja bem escurecida, e o sapato social apertando o pe. Em dado momento, calculei mal uma esquina e entrei num lugar desconhecido, e tive que consultar o mapa umas 3 vezes ate ver que teria que andar mais do que esperava. E por ruas COMPLETAMENTE vazias e escuras. O sentimento carioca basico bateu, e fui ficando nervoso. O pe doia, mas apertei o passo mesmo assim, andando praticamente no meio das avenidas. Quando vi o parque ao longe, fui ficando mais calmo, mas realmente so relaxei quando vi o predio...
Eu era o unico nesse estado de espirito. Cruzei com familias, criancas, adolescentes bebendo e ate um moleque de 16,17 anos fazendo um jogging naquela hora, numa das avenidas mais desertas das redondezas. Pois e, #RiodeJaneirofeelings...
Cheguei em casa e vi logo a ferida na planta do pe, produzida por essa longa caminhada noturna, feita com calcado nao apropriado para tal. Deitei a tempo de ver o segundo tempo do jogo do Brasil (alias, que isso hein??). Hoje chove, o pe doi e nao achei guarda-chuva na casa. Vamos ver se terei animo para ir no Museu da Vanguarda Artistica Russa, que me parece legal pacas. Estou comecando a desconfiar que vou precisar de umas ferias das ferias quando retornar ao amado balneario...
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