segunda-feira, 1 de julho de 2013

Dia 7 - O Idiota sempre salva




Dia 7 – O Idiota sempre salva

Meus amigos, depois da jornada noite branca adentro de domingo, queria dormir ate quase meio-dia. Contudo, as nove horas minha anfitria Elena ligou, para acertar alguns detalhes domesticos. De pe e com sono, olhei pra fora e vi que chovia sem parar. Confesso que deu mais preguica ainda, e so fui sair de casa quase meio-dia. Meu destino era a Mansao Rumyantsev, outrora a luxuosa residencia do tal Conde Rumyantsev, e hoje um museu que abriga exposicoes sobre a historia da cidade.

Chovia MUITO. Diante disso, e da bolha que feria meu pe, combinei o metro com onibus, para diminuir os deslocamentos. Claro que nao adiantou nada, ja que fiquei rodando como um peru doido ate achar o ponto correto. Aqui, voce paga a passagem para uma bilheteira, que fica sentada junto com os passageiros e se movimenta pelo interior do onibus para coletar a grana. E de praxe que as pessoas deem dinheiro uns para os outros numa `corrente`, pois se o buzum esta lotado e impossivel para a velhinha chegar la atras.

Saltei QUASE no ponto certo, e devo dizer que continuava a chover MUITO. Cheguei na mansao, e estava bem vazia. Maravilha…fui direto para a exposicao permanente sobre a chamada Grande Guerra Patriotica e o Cerco a Leningrado. Trocando em miudos, era uma exposicao sobre o cotidiano da populacao da cidade durante o cerco nazista na II Guerra, um episodio marcante do conflito, dada a tenaz resistencia dos russos.

A exposicao e emocionante. Estao la cartoes de racionamento, diarios de criancas, fotos da destruicao, mapas, uniformes velhos, cartazes de propaganda, fotos dos atiradores de elite do Exercito Vermelho (os lendarios snippers comunistas abateram centenas de nazistas) e diversos registros que procuram propagar a memoria da resistencia sovietica no periodo. Eu conhecia o episodio, que atraiu atencao do mundo todo na epoca, mas aprender um pouco mais sobre o cotidiano do povo no periodo foi fodastico. Ainda pude ver outras exposicoes sobre a vida durante os anos de 1920-1930, que tambem eram interessantes, mas nao cativavam tanto como aquela sobre a II Guerra.

Com espirito patriotico elevado (mesmo que de emprestimo), me dirigi para a Catedral de Sao Isaac, uma construcao colossal atras da Praca dos Dezembristas. Chovia MUITO, como eu ja disse. E ai me veio a suprema ideia de jerico, motivada pela burrice e pela falta de informacao. Eu tinha a opcao de entrar no `museu` da Catedral ou nas `colunas`, ou em ambos. Como a fome apertava, escolhi `colunas`, imaginando que elas dariam acesso a uma visao mais ampla do interior da Catedral. ERREI FEIO, ERREI RUDE. Primeiro, uma porra de escada estreita completamente proibitiva para fumantes, mesmo que moderados, e povoada por familias tirando fotos, o que parava sempre a fila. Chegando la em cima, me descobri ao ar livre, no topo da Catedral. As `colunas` devem ser um lugar sensacional para se ver a cidade ao fim da tarde, com uma brisa solar leve batendo. Com vento e chuva, senti-me como um pobre sovietico no Cerco a Leningrado, passando frio e sofrendo. Dei uma volta protocolar, e logo comecei a descida, tambem interminavel. Agora tinha uma ideia fixa: COMER NO IDIOTA.

O `Idiot`, como informei no post anterior, e um restaurante acolhedor e tranquilo nas margens de um canal menor. Pra la eu me dirigi, e novamente fui recompensado. A truta nem estava tao especial, mas a conjuncao da comida, mais a vodka de graca, o meio litro de cerveja russa, o café e a liberdade para fumar um cigarrito me deixaram leve e seco. E resolvi caprichar na sobremesa, pedindo o `sonho do Idiota`: sorvete com creme azedo (tradicao aqui), morangos e syrup. Sensacional, sensacional…

E assim voltei para ca, tao disposto que resolvi encarar o metro na hora do rush. A vodka da coragem, amigos. E nao me abati, mesmo com as interminaveis baldeacoes e aquela classica caminhada de 20 minutos da estacao Chernychevskaya ate o predio, passando por dentro do parque enlameado. De tudo que vi, o lugar que levo como meu canto aqui e esse restaurante, que pela segunda vez me levantou a moral. Se a escassez de rublos na carteira me obrigar a fazer opcoes nos dois proximos dias, o Idiota ja esta garantido. 

PS: Para esclarecer os diferentes nomes da cidade: De 1703 ate 1914, SAO PETERSBURGO; De 1914 ate 1924, PETROGRADO; De 1924 ate 1991, LENIGRADO; De 1991 ate hoje, SAO PETERSBURGO de novo. So pra confudir mais, continua a existir LENINGRADO, e uma regiao administrativa federal, tipo o `estado` na qual se situa Piter. Ao que tudo indica, a galera fora daqui nao quis tirar o nome de Lenin da regiao como um todo...  

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