domingo, 30 de junho de 2013

Dia 6 - Dentro da noite branca

 Meus amigos, que noite! Como havia dito, domingo nao faria nada durante o dia, como forma de descansar um pouco depois de tanta camelagem sob o sol do Norte. Dito e feito, fiquei de bobeira em casa, lendo e vendo noticias do Brasil. So sai pra dar uma corrida no parque e ver a russada curtindo o domingo de sol. Ao final da tarde, comecei a me preparar para o meu programa noturno, cujo roteiro era: bale no Mariinsky, jantar, e caminhada noturna pelas margens do Rio Neva.

Tudo comecou bem (quando o sujeito escreve isso, e que algo vai dar errado no final da historia, ne?), pois o sol sumiu nas nuvens e pude andar calmamente ate o metro na minha beca especial (pois e, achei que a ocasiao pedia um Joazinho mais formal, com blazer, sapato e camisa social). Saltei na estacao mais proxima do teatro, e fiz a opcao de ir a pe, ja que nao havia calor. Ok, so que no caminho uma das pontes que deveria atravessar estava fechada para filmagem, entao tive que dar uma volta bem maior do que prevista. Isso me deixou nervoso, neurotico e angustiado, que sao tres condicoes bem comuns para os que me conhecem. Claro que me perdi, e tive que pedir duas vezes orientacoes na rua, ate achar o caminho. Nesta altura, chovia e comecei a correr com medo de perder o horario ou entrar em filas gigantescas. La estava eu, de `conjunto social`, correndo pateticamente sob a chuva de Petersburgo. Ao chegar no Teatro, olhei para o relogio com ansiedade (comum tambem, ces sabem), e ainda faltava uma hora para o inicio do espetaculo!!! Eu sei, eu sei, mas nao consigo evitar...

Entrei no teatro, cujos corredores internos e hall sao bem menos impressionantes do que nosso Municipal. Porem, o auditorio principal e fantastico, ricamente decorado e com uma boca de cena imensa e um belissimo painel. Meu lugar era excelente, seria o equivalente ao balcao nobre no Rio, a esquerda da plateia, proximo dos camarotes.

Eu nao sou um conhecedor de danca (na verdade, conheco bem pouca coisa, mas a gente da um enrolada), devo ter ido a tres bales no maximo. A obra era La Baladyere, bale russo montado pela primeira vez em 1900, com 3 atos e 3 horas de duracao. Lendo o programa, vi que era a estreia de um novo primeiro bailarino, um sujeito chamado Kim Kimi. Mas, quem me chamou a atencao foi a primeira bailarina, uma tal Oxana. O braco dela aberto deve ter uns 2 metros de comprimento, mas ela conseguia se mover com leveza e flexibilidade. Achei a musica excepcional, e o ato final apoteotico, com a representacao de um sonho de um dos personagens e uma coreografia lenta e hipnotica com quase 30 bailarinas em cena.Bonito pra cacete.

Na saida, comecei uma camelagem atras de restaurante. Tinha anotado alguns, mas um ja estava fechado (passava das 23 horas). Depois de dar uma rodada, achei justamente o que tinha achado mais simpatico, o `Idiot`, nomeado assim em homenagem ao livro de Dostoievsky. Extremamente aconchegante, com estantes de livro, mesas pequenas, luz de velas e uma boa area de fumantes (que, na verdade, era a melhor parte do estabelecimento rs). Estava bem vazio, e me ofereceram um copinho de vodka `por conta da casa`. Eu mesmo pedi 2 tacas de Bordeaux, e bati uma massa muito boa. Sai de espirito elevado, e me dirigi para a margem do Rio Neva para assistir as pontes se abrindo na madrugada. Sim, a partir de 1 e 30 da matina as diversas pontes que cruzam o Rio se abrem por um tempo, para a passagem dos navios maiores. Durante o verao, com sol ate mais tarde, e um espetaculo apreciado pela turistada e pelos locais. 

No comeco, foi bem divertido andar meia-noite e meia pelas ruas quase desertas, numa penumbra inusitada, sob um cel azul-escuro. Os predios que via de dia sao todos iluminados, e o cenario e bem impressionante. Vi logo de cara uma das pontes levantadas, quase em frente ao Hermitage, e fui andando para leste pelo rio, na direcao de minha casa. Muita gente fazendo o mesmo pelas margens, familias inteiras, japoneses etc. Parei em frente a Ponte da Trindade e fiquei ali em frente esperando ela `subir`. Acho que esperei quase uns 40 minutos, tirei umas fotos quando ela levantou, e fiquei ali me divertindo com o engarrafamento de barcos lotados de turistas, que costumam gostar de passar por baixo da ponte no momento derradeiro...

Ai comecou a parte mais dificil da noite. Tomei o rumo de casa pela margem do Neva. O plano era ir andando tranquilamente, curtindo a noite branca, ja que o trajeto e longo, como sabem. Porem, fiz isso exatamente no momento em que realmente fica quase escuro (entre 1 e 3 da matina). E, assim que passei a ultima ponte famosa, as ruas ficaram completamente desertas. De repente, me vi andando largas avenidas onde quase nao havia gente, com a `noite branca` ja bem escurecida, e o sapato social apertando o pe. Em dado momento, calculei mal uma esquina e entrei num lugar desconhecido, e tive que consultar o mapa umas 3 vezes ate ver que teria que andar mais do que esperava. E por ruas COMPLETAMENTE vazias e escuras. O sentimento carioca basico bateu, e fui ficando nervoso. O pe doia, mas apertei o passo mesmo assim, andando praticamente no meio das avenidas. Quando vi o parque ao longe, fui ficando mais calmo, mas realmente so relaxei quando vi o predio...

Eu era o unico nesse estado de espirito. Cruzei com familias, criancas, adolescentes bebendo e ate um moleque de 16,17 anos fazendo um jogging naquela hora, numa das avenidas mais desertas das redondezas. Pois e, #RiodeJaneirofeelings... 

Cheguei em casa e vi logo a ferida na planta do pe, produzida por essa longa caminhada noturna, feita com calcado nao apropriado para tal. Deitei a tempo de ver o segundo tempo do jogo do Brasil (alias, que isso hein??). Hoje chove, o pe doi e nao achei guarda-chuva na casa. Vamos ver se terei animo para ir no Museu da Vanguarda Artistica Russa, que me parece legal pacas. Estou comecando a desconfiar que vou precisar de umas ferias das ferias quando retornar ao amado balneario...    


sábado, 29 de junho de 2013

Dia 5 - Solidao em Peterhof ou O Cansaco de Quem Viaja

Meus amigos, eu sei que ninguem gosta de ser `turista`. Todos preferem se imaginar como `viajantes`, gente esperta que viaja pelo Brasil e/ou pelo mundo em busca de experiencias mais autenticas e menos caretas do que os `turistas`. Um bar escondido, o restaurante que nao esta no guia, a `experiencia` que so e acessivel para os que nao viajam com pacotes e sabem mergulhar na cultura local. Bom, deixa eu dizer algo: todo mundo acaba sendo turista. Sentimos fome, cansaco, estranhamento, e, principalmente, nos sentimos exaustos pelo excesso de informacoes, objetos, pessoas e predios. Na nossa cidade, andamos com os sensores desligados, mas, na viagem, estamos o tempo todo alertas, buscando novidades e encantamento. E isso CANSA. E isso ai descreve Joaozinho em Peterhof, o palacio campestre de Pedro I e seus descendentes.

Acordei cedo, pois sabia que seria uma viagem razoavelmente longa. O complexo de palacios e jardins fica num suburbio ao sul de Piter, e e preciso fazer uma combinacao entre metro e onibus, num total de quase uma hora de viagem. E assim eu fui, sem grandes problemas. A entrada e muito bonita, uma alameda central com uma fonte espetacular no meio e, ao final do caminho, a parte frontal do palacio. A esquerda, a entrada para os jardins `de baixo`, que sao uma das grandes atracoes do lugar. Comprei o bilhete, e fiquei ate feliz, pois a bilheteira me perguntou se era russo, ja que me dirigi a ela na lingua nativa. Aqui, todos os museus tem precos mais baratos para locais. Entrei com o sol de 11 da matina batendo forte, e acabei dando uma sorte grande: exatamente nesse horario os chafarizes da espetacular Grande Cascata sao ativados ao som de um hino. O povo adora, e geral levantou os tablets pra fotografar. Alias, percebi que a massa de turistas e basicamente russa neste local. Fiquei andando pelos jardins por um tempo, e o tal cansaco bateu. Era muito sol, era muita gente, era muito calor, e nao havia cidade em volta, so centenas de pessoas batendo perna pelas alamedas, bricando nas fontes com as criancas e tomando sorvete. Logo senti fome, e resolvi comer um blini, iguaria tipica daqui. E basicamente uma panqueca com recheio, e escolhi a de carne moida com molho de alho rs. Tava decente, nada espetacular. Nada que leve carne moida e alho pode dar muito errado, nao? Em seguida, retomei a camelagem e resolvi pagar o ingresso para o Grande Palacio. Ai o negocio pegou.

Primeiro, havia uma fila para comprar os ingressos, que terminava numa area sem sombra. Joaozinho entra e espera uns 40 minutos nela. Depois, havia outra fila, na qual Joazinho tambem esperou quase o mesmo tempo. Eles so deixavam entrar um grupo de cada vez, dada as dimensoes restritas dos corredores internos. Quando finalmente entrei, havia outra fila, desta vez para colocar plasticos nos calcados (nosso Museu Imperial em Petropolis faz a mesma coisa). E, depois, todos se amontoam para outra fila, a partir da qual o `passeio` realmente se inicia. Eu acabei entrando no horario em que as visitas guiadas sao feitas para grupos russos, por isso nao ganhei audio-guia nem acompanhamento especial. Para piorar, eu sempre estava `espremido` entre dois grupos de russos, e me posicionar dentro das salas era complicado paca. Acabou sendo divertido, pois um grupo de brasileiros estava na mesma situacao, e a tentativa deles de tirar uma foto proibida dos interiores do palacio me deu aquela saudade do patropi e de sua gente malandro-agulha... 

O palacio? Espetacular, uma mistura entre aposentos barrocos, ornados em ouro e com decoracao grandiosa e excessiva, com salas mais classicas e `limpas`. Mas, confesso que o cansaco do turista estava batendo forte, e eu so pensava em voltar. Desta vez, quis voltar de barca, que e BEM mais caro, mas evitaria uma longa camelagem suburbana com o sol a pino. E la fui eu pro pier, onde comprei meu bilhete e me dirigi ao local. Porem, ainda iria demorar meia hora. E la estava eu, num sol de rachar coco, sentindo aquela solidao imensa e o cansaco mencionado acima! Vislumbrei uma sombra no final do pier, e pra la me dirigi. Tinha um toco de madeira pequeno, sentei ali, e acendi um cigarro. Imaginem a cena desoladora: Joazinho sentado num toco de madeira no final do pier de Peterhof, suando desgracadamente, a cabeca latejando e as pernas doendo. Amaldicoei a dinastia dos Romanov e desejei a explosao de toda aquela merda. Finalmente, entrei no barco, onde aproveitei para formular um plano final que poderia redimir a solidao. Esse plano deveria envolver tres coisas muito importantes: AGUA, CERVEJA E SOMBRA. E assim fui para o Gosti, restaurante onde tinha estado dias atras comendo um salmao muito bom. E valeu muito a pena. Cerveja `branca` de meio litro, risoto escuro com polvo e agua, alem de sombra e uma rua mais vazia. Essa era a solidao que eu precisava pra me sentir menos esmagado e destruido. Nao economizei um centavo, porque PORRA eu merecia um pouco de boa vida depois de tantas filas e tanto sofrimento...

Voltei feliz pra `casa`, a despeito de ter enfiado o pe em asfalto fresco em plena Avenida Nievsky. Troquei mais dinheiro, e ao chegar no parque aqui ao lado, o ja adorado Tavrichesky, onde o vento bate, os caminhos sao curtos e as arvores fazem muita sombra, aproveitei para tirar a camisa e me juntar aos locais. E la fiquei algum tempo, pegando sol. Desta vez, nao era o sol massacrante de horas atras, nos jardins de Peterhof. Agora, ja era a cidade que conheco um pouco mais, e estava com espirito levantado depois da refeicao e da cerveja (e precisava queimar o torso, que nesta altura esta em franco contraste com o pescoco roxo e a cabeca grande e vermelha). E decidi: domingo, CHEGA de camelagem, palacios e museus. Tenho um ingresso para o Teatro Mariinsky, para uma apresentacao de bale russo. Esse sera o unico programa fixo, e pretendo arremata-lo com um jantar em qualquer lugar onde haja mesa livre, bebida gelada e boa comida. Afinal, se e pra ser solitario, que seja em grande estilo...         
                

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Dia 4 - Poroes e ruas

Meus amigos, hoje ate acordei animado, pois olhei para fora e estava nublado. Para melhorar a situacao, o simpatico termometro da cozinha acusava uns 21 graus. Com felicidade indescritivel, coloquei uma calca e sai na rua. Meu destino: Fortaleza de Pedro e Paulo, a fortificacao criada por Pedro O Grande para marcar a fundacao de Petersburgo, que se localiza num territorio estrategico arrancado em uma guerra com os suecos. 

La estavam as excursoes e as hordas, mas como o espaco e aberto, dava pra driblar geral. Primeira parada foi na Catedral de mesmo nome, uma perola do barroco deles. Muito ouro, religiosidade derramada e iconografia de profetas e santos, sempre vinculada as figuras da familia real. Nessa Igreja estao enterrados varios membros da dinastia Romanov (la esta o proprio tumulo de Pedro I), e algumas tumbas de marmore sao realmente muito bonitas. Ha uma capela anexa pra homenagear o ultimo czar e sua familia, mortos depois da Revolucao de 17.

Andando alguns metros em diante, entrei na Prisao Trubetskoy. Foram nas dezenas de celas dessa prisao que o czarismo encarcerou boa parte dos seus presos politicos. Enquanto andava pelas galerias e celas, lia os retratos, nomes e biografias de varios revolucionarios russos da segunda metade do XIX. Basicamente homens e mulheres (muitas mulheres) jovens, que faziam parte do movimento narodnik (o populismo russo), que pregava a ida dos intelectuais ao povo. Essa molecada se embrenhou no mundo rural russo para `aprender` com os homens comuns as virtudes da vida comunitaria, e ajuda-los a fazer a revolucao (e claro que os camponios nada queriam com aquela juventude urbana e intelectualizada). A decada de 1870 foi momento fundamental desse movimento, que foi estudado com brilhantismo por um italiano chamado Franco Venturi, num livro nao-traduzido para portugues chamado Il Populismo Ruso. Na decada de 1880, a rapaziada partiu para acao violenta, e se tornaram os pioneiros do terrorismo moderno. Grupos como `Vontade do Povo` e `Terra e Liberdade` conduziram acoes de sabotagem e assassinato, e o proprio czar Alexandre II foi morto num desses atos (lembram do post em que falei sobre a Catedral do SALVADOR DO SANGUE DERRAMADO?). Na prisao Trubetskoy, varios foram encarcerados e vigiados 24 horas por dia. Havia castigos fisicos, solitaria, tudo aquilo que conhecemos.Bolcheviques por la passaram tambem, como Maximo Gorky, e ate mesmo Trotsky (tirei foto, Guilherme Leite).

ALIAS, o que os bolches fizeram quando tomaram o poder em 1917? Fecharam a prisao. MAS, nao por muito tempo, pois em 1918 o chamado Terror Vermelho comecou a enfiar os presos politicos la dentro. Desta vez, duques, generais, mas tambem cidadaos comuns da cidade. Ate recentemente, arqueologos estavam descobrindo resquicios de fossas coletivas, datadas exatamente do periodo 1918-1922. Isso tudo me fez pensar em como os `dois tempos` da cidade por vezes se conectam. O proprio irmao de Lenin foi preso em Trubetskoy, mas isso nao impediu que o regime sovietico utilizasse essa Bastilha czarista para organizar sua propria repressao. So pra reafirmar esta ligacao: no alto da Igreja, ha um relogio muito bonito, que duas vezes por dia executava o Hino czarista. A partir de 1917, ele passou a executar o Hino sovietico. No mesmo lugar, no mesmo horario. So mudava a musica.

Como se ve, hoje foi dia de perambular pelos poroes de Petersburgo. E resolvi arrematar esse passeio alegre e pra cima com uma visita ao sombrio Museu da Historia Politica Russa. Demorei uma meia hora pra achar, eu realmente tenho problemas graves com mapas em geral, ou com a propria concepcao de geografia, nao sei. Infelizmente, isso me fez perder tempo precioso, pois o museu fechava 18 horas. La chegando, entrei direto nas salas com fotos, arquivos e documentos do periodo sovietico. NAO TENHO PALAVRAS para descrever o que e aquilo para alguem interessado na historia da revolucao. Na verdade, tenho palavras: sao varios mostruarios preciosos, com relatorios e declaracoes originais, fotos de reunioes do Politburo, quepes, uniformes, posters de propaganda etc. Os textos eram bem criticos, descrevendo com precisao os mecanismos de repressao politica, a coletivizacao forcada etc. Em uma das salas, apertei um botaozinho pra ouvir um discurso original da Krupskaya nos anos 30...subindo, voce segue a historia pos-Stalin, ate o fim da URSS. Vale muito a pena, e e um museu vazio, ja que nao creio que muitos turistas tenham um grande interesse em fotos de comissarios regionais do PCUS e esse tipo de coisa. 

Saindo de la, desci calmamente pela Ponte da Trindade, a maior da cidade, bonita demais. Tirei uma foto, quase atropelei uma moca, quase fui atropelado por um skate, e me deparei com o Jardim de Verao de Pedro. Maneiro isso, ne? O sujeito ta de saco cheio com o pais, resolve fundar uma cidade moderna e faz pra si um jardinzinho, tipo um puxadinho perto do palacio. Obviamente, o negocio e sensacional, no modelo dos grandes jardins franceses do XVIII. E la finalmente meu espirito saiu um pouco dos poroes e flutou pelas ruas da cidade. Enquanto descansava num dos bancos observando as pessoas passarem, organizei meus pensamentos sobre as pessoas, a comida e a vida aqui, como eu prometera fazer no post anterior.

Os russos nao sao simpaticos, mas nao sao grosseiros. Niguem vai puxar papo contigo ou sorrir pra voce de bobeira, mas em nenhum momento fui hostilizado ou mal tratado. Eles podem ser bruscos, eu diria. Mais de uma vez, olharam com impaciencia pra mim, como se fosse uma obrigacao dominar essa lingua bizarra que por vezes povoa meus pesadelos com suas MALDITAS declinacoes. Por outro lado, eles gostam e curtem demais o verao e a vida na rua. Os parques estao sempre cheios de gente jogada na grama, tomando sol, cerveja e fazendo exercicio. Tambem vejo muitos quiosques vendendo frutas, sempre cuidados por vovozinhas que ficam sentadinhas la dentro, oferecendo cerejas e morangos a quilo. So nao tem mais desses quiosques do que farmacias e mercados 24 horas. 

Comida, alias, nao esta sendo um grande problema. Hoje fui num restaurante A QUILO dentro da Fortaleza. Fui apontando as coisas e pegando. Na hora da bebida, pedi  cerveja, que me foi entregue num copao de meio litro. MEIO LITRO. E claro que era muita comida. Tinha o borsch, desta vez gelado. Tinha tambem arroz com uma especie de panqueca de ovo com frango, e uma salada. A panqueca estava deliciosa, mas decidi que nao vou com a cara do borsch, por um motivo simples. Nao tenho grandes paixoes por beterraba. Alias, alguem tem grandes paixoes por beterraba?? Aqui em casa, tenho comido salame, caviar, mel, pao e biscoito, alem de iogurte. Convenhamos, nao e vida de Imperador, mas esta longe de ser a dieta de um resistente em Leningrado durante o cerco nazista.  

As mulheres. Sim, elas sao muito bonitas. E estilosas, algo facilitado pelo biotipo anguloso e esguio. No verao, so usam saias, minissaias, vestidos, shortinhos de cintura alta etc. E, na maior parte das vezes, usam bem, com nocao. De modo geral, elas tem um aspecto meio selvagem, diferente daquele olhar languido brasileiro. Ou olham de cima, com desprezo, ou olham direto no teu olho - para depois, olhar novamente com desprezo.

De modo geral, a vida e corrida, e quase ninguem flana de bobeira. A geografia da cidade nao ajuda, pois, como disse, e uma urbe planejada, com grandes avenidas, pracas gigantescas, e predios monumentais para exibicao de poder imperial. E uma cidade-Imperio, e os `suditos` sao sempre pequenos nela. Por isso reclamo tanto de andar no sol aqui. Dobrar uma rua e depois seguir nela ate outra e um processo que pode levar 20 minutos, por conta da largura e comprimento das grandes avenidas. 

Mas, eles acabam se ajeitando. Os parques funcionam como areas de alivio,e o meu aqui perto de casa ja me e familiar. Tanto que, ao entrar nele algumas horas atras, voltando do passeio, resolvi me juntar aos nativos e comprar um sorvete no quiosque. Coisa de 2 reais, e sai com uma casquinha de chocolate, flanando pelo caminho principal enquanto via a multidao branca estendida na relva, como se na praia estivessem. Mesmo na mais imperial das cidades as pessoas conseguem arranjar espacos de intimidade e descanso... 

Falando em Imperio, amanha e dia de nobreza. To pensando em ir para Peterhof, especie de Palacio de Versalhes local. Mas, ainda nao estou decidido. Ainda tem uns poroes ai que quero checar...
  

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Dia 3 - Hermitage II, Museu Russo e Jobim em Petersburgo

Meus amigos, ontem dormi vendo o jogo do Brasil na televisao. Em russo, e claro. Foi um pouco frustrante, pois consegui entender uns 5% do que o narrador falava. E ainda dormi no meio do segundo tempo, pois ja passava de uma da matina aqui. Mas, e uma experiencia otima ver um jogo do Brasil sem Galvao, Sportv e adjacencias. Coisas que a Russia te proporciona...

Hoje foi o dia do retorno ao Hermitage. Desta vez, a ideia era uma camelagem inteligente e direcionada. O plano era subir direto para o terceiro andar, desviando das excursoes e das hordas, ate chegar ao local da arte oriental e bizantina. Joazinho-moleque, Joazinho-raiz, esse personagem que se pretende malandro, se ferrou, pois a secao de arte bizantina esta fechada para reforma. Tudo bem, pois no caminho pra la me deparei com as ABSURDAS galerias dedicadas a arte francesa do XIX e do XX. Quer ver Gauguin? De monte, com varias telas `polinesias` conhecidas. Quer Picasso? Duas galerias so pra ele. E Matisse, Monet, Pissaro, Sisley e uma pa de impressionistas e pos-impressionistas. Serio, so perde pro Museu D`Orsay, que tem a obvia vantagem de ser em Paris. Na descida, dei um pulo na galeria de consolacao que os diretores prepararam, com uma amostra da colecao bizantina dos caras.

Voces vao me perguntar: o cara vai pro museu na Russia pra ver arte francesa e bizantina? ARRA (com acento no segundo A, please), respondo eu. Lembrem de uma coisa: este pais viveu a tensao entre ser Ocidente e Oriente. Sao Petersburgo e, na descricao de Pushkin, uma `janela para o Ocidente`, pois foi construida no intuito de modernizar um pais atrasado e agrario, fechado em si mesmo. Na producao artistica russa do seculo XIX-XX, este `desejo de moderno` e fundamental, por isso faz todo sentido ver uma imensa colecao de franceses no Hermitage. E um indicio fudido do gosto da elite local. Bueno, e Bizancio, entra onde, fio? ARRA 2, respondo eu. Este e um pais fundado na fe ortodoxa. Isto e, a fundacao cultural e religiosa da Russia foi baseada no cristianismo oriental, cuja sede foi o Imperio Romano do Oriente, capital Bizancio (ou Constantinopla, ou Istambul atualmente). Assim, o mundo medieval russo foi em larga medida moldado por essa influencia. Isso significa: icones religiosos como obsessao artistica de um povo. 

Beleza, e ai? Isso da liga? ARRA 3, da sim, nego. Basta ir ao Museu Russo e subir ao segundo piso, na sensacional exibicao da arte moderna dos caras. Ali voce vai ver que futuristas, construtivistas e outros por vezes recorriam a essa arte `oriental` e religiosa para produzir temas e formas absolutamente modernas. Tipo esse quadro da Goncharova, baseado no classico tema da Madona com seu filhote . Aos comunas de plantao, nao preciso lembrar que essa fusao entre modernismo e simbolismo religioso arcaico deu numa mistica revolucionaria doida e utopica. Pra quem duvidar e tiver saco, va ate o final deste famoso poema de Aleksandr Blok, intitulado Os Doze. Doze soldados vermelhos vagueiam numa noite escurta...quantos eram os apostolos mesmo? ARRA 4. 

E com esses pensamentos bizarros passei a tarde no Museu Russo, que e muito foda. Nao ha hordas nem excursoes, e da pra voce ficar de frente com perolas numa sala vazia, ruminando. Outra coisa interessante para os comunas de plantao. Nas galerias dedicadas as decadas de 1940, 1950, 1960 etc, nao ha mencao ao conceito `realismo socialista`. Eles mal falam de socialismo. E, nao sei se por acaso, nessas galerias nao ha comentarios no audio-guia. Puxado isso, nao? Outro comentario inocente: aqui, as salas nao sao cuidadas por segurancas, como no Brasil, mas por vovozinhas entre 85 e 112 anos. O efeito MEDO e o mesmo, garanto. 

No intervalo entre um e outro museu, fui almocar na mesma rua que jantei ontem. Desta vez, fui para um cafe que servia tres pratos por 300 rublos, o que e bem baratinho pros padroes locais (tipo 8, 9 euros). Isso incluia saladinha, sopa, prato principal e cha. Ai vem o drama: a menina (nao devia ter mais do que 15) nao falava nada alem de russo. Bueno, fui perguntando (`carne ou peixe`) coisas basiconas, mas a sopa escolhi sem descobrir muito bem o que era. O prato principal saquei que era carne, mas nao tinha ideia que era figado rsrs. Isso me leva a um comentario lingusitico que vai interromper esse roteiro de viagem.

Como alguns sabe, estudo russo ha praticamente 4 anos. Entretanto, meu dominio da lingua e menor do que o frances, que estudei por um ano e meio. Isso e muito frustrante, devo dizer. Dos 4 comandos da lingua (ler, entender, escrever e falar), eu me sinto melhor lendo, mas mesmo assim hoje comprei um detergente meio no susto no mercadinho aqui perto. Uma das razoes pra essa dificuldade chama-se DECLINACAO. Explicando rapidamente: em portugues ou ingles, quando voce constroi frases como `eu vi a escola`, `eu estou na escola`, `eu estou perto da escola`, `um pais se constroi com escola`, a `escola e bonita` ou `deram a (craseado) escola um novo laboratorio`, em todas escreve-se escola (ou school) da mesma forma. Em russo, cada uma dessas frases acima faz parte de um caso especifico, e isso implica escrever de forma diferente escola, caso a palavra seja sujeito, objeto direto, objetivo indireto etc. SACARAM O TAMANHO DO PROBLEMA? Pois e, e por que insisto nisso, nem eu sei explicar direito. Juro. Bueno, de volta ao roteiro...  

Na saida do Museu Russo, rodei atras de um bar para tomar uma cerveja e ler o livro que tinha comprado sobre arte moderna (em ingles, gente). Acabei no Cafe Literatura, que reza a lenda ter sido lugar de predilecao de Pushkin e outros grandes do XIX. Pedi mesa na secao de fumantes (ah, os russos), e fui imediatamente defumado numa densa atmosfera de tabaco. Bebi uma cerveja tcheca (acabaram sendo duas) e comi um aperitivo que era uma panqueca de batata com salmao. Juro que estava bom, e por ali fiquei mais de uma hora, esperando o sol baixar e o metro esvaziar. Enquanto isso, comecou uma musica ao vivo, e a cantora logo atacou com dois orgulhos brasileiros: Insensatez e Corcovado. Em ingles, infelizmente. Mais uma vez, confirma-se que a bossa nova e uma das unicas credenciais culturais do Brasil no mundo, e na noite branca de Petersburgo, Jobim valia tanto quanto Cole Porter, que foi tocado a seguir. Fico me perguntando sobre essa relacao entre particular e universal. Ca esta o brasileirinho valente, que leu e se emocionou com Tolstoi , Dostoievsky, Gogol e cia, e que ve na cultura russa uma combinacao Oriente-Ocidente muito poderosa. Eu e muitas pessoas. Mas, e se olharmos ao contrario? Alem de Jobim, o que falaria a sensibilidade de um russo vindo a partir do nosso canto do mundo? Pelo menos na casa onde estou, alguem foi tocado. A Elena Pavlova, que fala espanhol, estava lendo um texto da Liv Sovik sobre o tropicalismo e suas polemicas, que utilizava como eixo de discussao a cancao `Haiti` de Caetano e Gil. Se ela conseguiu entender toda essa confusao, fico feliz. 

Amanha nao sei ainda o que vou fazer, mas e provavel que o post seja mais relacionado com o dia-a-dia das ruas e com observacoes pitorescas sobre os russos (e as russas, pois sei que ta cheio de negozinho malicioso querendo ler isso). To so juntando umas coisas na cabeca...

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Dia 2 - Hermitage parte I, ou Camelagem Indoors

Meus amigos, hoje eu tinha acordado bem. Na noite anterior, dei uma saida para as margens do Neva para sentir um pouco do clima da `noite branca`. Foi um pouco surreal. Esta area nao e tao movimentada, e por vezes me vi andando sozinho numa avenida enorme, cercado de predios horizontais aparentemente desertos, sob a `luz` de 22 horas. Nao da medo, mas uma sensacao estranha de irrealidade. Chegando nas margens (depois de atravessar uma movimentada rua de mao dupla ao modo brasileiro), o cenario era tranquilo: alguns casais passeando, uma moca lendo, uns sujeitos tomando uma cerveja na mureta etc. Fiquei por ali uns 40 minutos, pegando um vento e vendo o horizonte. Foi o suficiente para perceber que faltava um elemento civilizador fundamental ali: a camelotagem, ou melhor, o vendedor ambulante de cerveja. Nao tinha um russinho ali ganhando aquele dinheiro honesto vendendo mercadorias sem imposto. Ai enfraquece, ne?  Se fosse na Urca, imagina o que o brasileiro empreendedor nao faria podendo vender cerveja na mureta durante a noite toda, pois o sol nao se poe? Ruminando essas filosoficas reflexoes, retornei e dormi tranquilo, dia ainda claro.

Hoje acordei na disposicao. Como prometera a mim mesmo, fui dar uma corrida no parque ao lado, aproveitando o solzinho que batia. Varios russos fazendo a mesma coisa. Depois, retonei para `casa` para tomar um banho e preparar um cafe da manha reforcado, pois queria ficar bastante tempo pelo Hermitage antes de parar para almocar. E, escaldado pelo sol do dia anterior, resolvi que iria de metro. E assim foi.

Desta vez de bermuda, andei uns 15 minutos ate a estacao Chernichvskaya, apelidada assim por conta do escritor Chernychevsky, autor do classico ` O que Fazer`, que inspirou Lenin. 28 rublos a passagem, que na verdade e uma moedinha do tamanho da nossa de 10 centavos, que voce deve inserir na roleta. Feito isso, eu desci. E desci. E desci um pouco mais, numa escada rolante interminavel que parecia me levar ao fundo da terra. Como se sabe, as estacoes de metro na Russia sao prodigios de engenharia. As de Moscou sao mundialmente famosas, mas a de Piter tem seu valor. Em nenhuma delas esperei mais do que 15 segundos por qualquer trem. Depois de fazer uma baldeacao, saltei bem perto do lendario Hermitage.

Alguem ai ja viu o filme Arca Russa? Neste filme, o diretor fez um plano-sequencia de 90 minutos, utilizando 35 salas do Hermitage, numa especie de delirio poetico que faz uma viagem pela Historia do pais. Pois e, la estava eu prestes a fazer meu percurso pessoal por este que e um dos maiores museus do mundo. 

Joaozinho-moleque, Joazinho-raiz, eu tinha comprado antes pela internet um ingresso para dois dias, pois sabia da imensidao do negocio e do tamanho das filas. Pois e, deixem-me entao dar um conselho sabio aos que sonham vir aqui um dia: nao venham ao Hermitage no final de junho ou comeco de julho. Sao HORDAS, eu disse HORDAS de grupos guiados das mais diferentes nacionalidades, todos liderados por um guia com um microfone pequeno que vai correndo por dentro dos saloes com a massa. No caminho, as hordas se trombam, e Joazinho foi quase esmagado numa das paredes do Palacio de Inverno. Seria como um sonho do Darlan Montenegro ou do Guilherme Leite: esmagar um burgues na parede do Palacio de Inverno.

Dito isso, o lugar e espetacular, mesmo com as hordas. Eu comecei com um tour pelo Palacio de Inverno e por outros aposentos imperiais. Sim, o Hermitage e um complexo, com museus no sentido `pictorico` do termo e predios imperiais anexos. E o Palacio de Inverno e aquele mesmo, o lugar cuja tomada representou o episodio definitivo da Revolucao Russa de 1917. Nao preciso dizer que Catarina II e outros que por la passaram capricharam, contratando arquitetos italianos e mandando bala no rococo, no barroco e no neoclassico (sim, houve um incendio em 1837, e depois o Palacio foi reconstruido).

Depois deste tour, eu pedia agua em todos os sentidos do termo. As pernas e a cabeca doiam, e o calor la dentro era intenso. Para piorar, o audio-guia que peguei quebrou duas vezes, obrigando-me a retornar ao ponto de entrada mais de uma vez para pegar um novo. Ai o Joaozinho-moleque foi ate o cafe rangar algo para poder continuar a camelagem indoors. Pois e, eu e varios malandros-agulhas de varias nacionalidades, todos espremidos numa fila para pegar uns sandubas insossos e uns doces sagazes. Catarina, minha nega, nao imaginaste que um dia hordas plebeias iriam tomar refrigerante com sanduiche no terreo de seu cafofo, ne filha? Tocqueville explica.

Refeito, parti para as galerias dedicadas a arte italiana. Muita coisa interessante, em especial da Renascenca, mas o delirio mesmo foram as galerias dos mestres holandeses. Eu acho que ha mais quadros do Rembrandt no Hermitage do que em toda Amsterda. Sem sacanagem. Duas perolas dele, O Retorno do Filho Prodigo , e Descida da Cruz estao la, assim como outras. E, nas galerias laterais, tem Haals, Rubens, Eeckhout, entre varios outros. Cenas da vida burguesa, paisagens e, claro, os grandes retratos feitos por esses caras. Mais uma vez, Rembrandt, com seu Retrato de um Velho Judeu . Tava de bom tamanho pra mim. 

Alias, foi na galeria de Rembrandt que fui quase atropelado novamente. Eu tinha que ver os quadros nos intervalos entre os grupos, ou escolher ver alguns menos cotados que nao atraiam multidoes. E, no caso dos holandeses e flamengos, tinha de monte. Satisfeito, desci para o terreo e sai para a margem do Neva. A cabeca doia muito, portanto tomei uma decisao sabia e refletida: entrei num bar que ficava dentro de um barco atracado, com o objetivo de tomar cerveja. Ah muleque! Escolhi uma cerveja siberiana, que parecia decente, nao estivesse completamente quente. Mesmo assim, consegui me arrastar mais uns 500 metros para ver a Praca dos Dezembristas, onde fica a Estatua do Cavaleiro de Bronze (ver primeiro post). A Praca e bonita, e tinha varios russos tomando sol, jogando frisbee ou trocando uma ideia. No caminho para o metro, passei por uma rua chamada Malaya Morskaya, onde varios escritores e intelectuais moraram. A rua tinha um clima um pouco mais intimista e aconchegante, e como havia uns cafes com mesas na calcada, pensei: porra, depois de sanduba tosco, mereco tirar uma onda de burgues russo estilo XIX, ne nao? E assim foi. Sentei e comi um salmao defumado sagaz, arrematado com sorvete de baunilha. Amigo, os russos SACAM MUITO de sorvete, e fato. Vende em qualquer lugar, e o povo capricha na elaboracao. E este valeu muito, quase senti as pernas de novo. E disse QUASE. Porem, foi o que eu precisava para conseguir me arrastar ate em casa, nao sem antes atravessar novamente meu parque proximo para cortar caminho, enquanto pensava que esta tinha sido a parte I. Afinal, tenho ingresso para amanha e uma galeria inteira de arte bizantina que to doido pra ver... 

Sei que este post ficou um pouco como guia de viagem ruim, mas prometo escrever algumas coisas menos obvias nos proximos dias, como impressoes sobre o povo, cultura, lingua etc. O problema e que a cidade e tao GRANDIOSA que a arquitetura e a monumentalidade se impoem sobre o intimismo e a subjetividade. Eu terminei ontem de ler o livro do Bernardo Carvalho (ler o primeiro post grande), e ele disse que Sao Petersburgo foi construida visando a visibilidade. E isso mesmo, em qualquer lugar que voce entre, sente-se pequeno numa avenida ou numa rua que te olha de cima e te `encaixa` dentro de um quadro no qual o poder imperial e o `olho` que guia a perspectiva. Com o sol batendo do jeito que esta, eu ando pelas ruas quase fugindo - do Imperio e do calor. Mas, nao tem descanso aqui. Literalmente, a cidade nao dorme. Hasta la manana.       

terça-feira, 25 de junho de 2013

Dia 1 - Noites brancas, dias quentes

Leningrado cidade-heroina (vao desculpar a acentuacao). Essa foi a primeira frase em russo que li, quando o pequeno aviao da Air France aterrisou em Polkhovo, aeroporto de Piter. Pois e, estava ali a primeira lembranca de que esta cidade tem dois tempos: um imperial, religioso e nacionalista, e outro socialista, ateu e ... nacionalista tambem. Afinal, a referencia ali era aos tempos de resistencia russa na Segunda Guerra Mundial.

Passando pela imigracao e depois de so sacar dinheiro no quinto caixa eletronico (era o ultimo, caso nao conseguisse, nao teria como pegar taxi, pois nao tinha casa de cambio), finalmente entrei no carro que me levou para dentro da famosa noite branca. Eram 23 e 30. 

Sim, a noite branca e linda. Era quase meia-noite, mas no horizonte a cor era violeta e vermelha, e havia um azul ja escuro no ceu. Nas ruas, muita gente passeando, saindo das compras etc. Porem, a noite nao e totalmente ausente. La por uma da manha, realmente fica mais escuro e da pra dormir, embora o ceu nao fique preto nunca. E como se o ceu do Rio passasse das 19 horas para as 5 da manha direto, deu pra entender? Fica aquela cor meio palida e sombreada, que Dostoievsky consagrou no seu livro "Noite Brancas". 

Fui recebido na rua por Elena Pavlova, que estava com medo de eu nao achar a entrada do predio. O medo dela era correto, pois o predio esta em obras, com andaimes e telas cobrindo a fachada. Alem disso, eu NUNCA encontraria o segundo portao. Segundo portao, perguntam os amigos que tiveram paciencia suficiente para atravessar o cromatico paragrafo acima? Yes. Como pude perceber, boa parte dos edificios aqui sao como condominos. Acessa-se eles por um portao principal, depois entra-se num patio comum, e em cada extremidade ha outros portoes para acessar as escadas e os apartamentos. O segundo portao da casa de Elena era uma grande porta de ferro, que dava passagem para uma escada sinistra, com fiacao a mostra e no "cimento". La dentro, primeira providencia e tirar os sapatos e calcar um chinelo/pantufa (tinha um reservado para mim). Meia-noite, e comi um borsch, que nada mais e do que uma sopa de repolho ou beterraba ou vegetais, muito comum aqui. E uma cervejinha pra rebater. 

Dia claro, 8 da matina, hora de fazer o registro oficial. Sim, todo turista tem que se registrar junto ao Estado. Como sou hospede de Elena, la foi ela nos correios pegar uns 45 formularios para preencher. A funcionaria nao foi muito solicita (uma tradicao aqui, segundo Elena. Russia Americana, pensei eu), e ela teve que voltar para checar na internet o endereco para onde teria que enviar os formularios. Depois de tudo feito, eu era um gringo registrado! E Elena me deixou, pois foi pegar o onibus para Estonia, onde trabalha seu marido, o Slav, e onde ela vai fazer um pos-doc. Daqui ate la, sao so cinco horas de onibus. 

Sozinho na cidade, parti pro mundo. E o mundo era quente, MUITO quente. Mulheres de vestidos e saias, homens de bermudas e chinelos, e Joao camelando de jeans. Foi duro, meus amigos, mas valeu muito. A casa aqui fica na parte leste do centro, uma area um pouquinho distante das grandes atracoes da cidade. Vejam no mapa o jardim a direita, onde ficam edificios que foram escritorios do poder sovietico depois de 1917. Puxem o mapa para esquerda, e ha outro parte, bem proximo, onde pretendo dar uma corridinha amanha. E, mais para esquerda ainda, vao se deparar um com um rio, que cruzei duas vezes hoje. E ali que comeca a parte mais central e historica. Mas, essa localizacao foi boa para eu dar uma caminhada sem rumo ate o Rio Neva, e aproveitar para ver o lendario Cruzador Aurora do outro lado, estacionado nas aguas do rio (Guilherme Leite pira). 

A cidade e cortada por largas avenidas e bulevares (lembrem, o neoclassico domina, por conta do periodo em que foi construida. Nao e uma cidade medieval), o que torna a andanca um pouco custosa no calor. Meio dia eu ja estava pedindo agua, ou melhor, CERVEJA. E la fui almocar um bom file de porco com um copo obsceno de cerveja, que para eles e refresco. Dei um pulo na Catedral de Kazan, construida em 1812, quando o general Kutuzov fez uma fervorosa oracao para Nossa Senhora de Kazan ajudar os russos a derrotarem a invasao napoleonica. Ajudou pra caramba, como se sabe. La dentro da Igreja, uma grande fila para os fieis beijarem o quadro com o icone de Nossa Senhora de Kazan. Imperio e cristianismo, meus caros. Roma se foi ha muito tempo, mas o Oriente ortodoxo permaneceu juntando as duas coisas...

Depois, fui para a Catedral do SALVADOR DO SANGUE DERRAMADO. Sim, e este o nome. Como nao entrar num lugar com nome de disco de banda de doom metal (em ingles e mais maneiro, SPILLED BLOOD)? O nome, alias, e por conta do atentado sofrido pelo czar Alexandre II em 1881, quando os anarquistas do Vontade do Povo o mataram com uma bomba. Para homenagear o falecido, Alexandre III mandou erguer uma catedral que de forma muito habil vincula o martirio de Cristo ao martirio de Alexandre. La dentro, TODAS as paredes sao revestidas de mosaicos com imagens biblicas e referencias ao czar. Cristianismo e Imperio, de novo. Durante o periodo sovietico, nego usou o espaco ate pra guardar cereais...

O calor era tao forte que quase dormi na praca, do mesmo modo que aquele personagem da ja classica musica de Bruno e Marrone. Era uma praca bonita, perto da lendaria Avenida Nievsky, cenario de contos de Gogol e Dostoievsky, e hoje eixo nervoso da vida comercial da cidade. Tinha um banco na sombra, eu sentei, e a cerveja gigante fez seu efeito, levando-me a alguns sonhos bizarros e a uns minutos de cabeca caindo no peito. Ao meu lado, um casal de idosos russos conversava e olhava os pombos. Bucolica a cena, nao?

Refeito, tomei o caminho de volta. E tome caminho, pois resolvi voltar tudo andando, o que levou quase uma hora. Rapida passadinha no mercado, so pra comprar o basico: caviar, cerveja, suco, salame, mel e outras coisas baratas necessarias para sobrevivencia. Sao 19 horas aqui, e realmente nao tenho folego pra camelar mais. No maximo, uma passeada em busca de um bar mais tarde para ver a agitacao das tais noites brancas. Pois, pelo visto, amanha tambem sera quente. E com filas, pois vou ao Hermitage, com o intuito de la passar todo o dia, junto as multidoes que invadem Piter nessa epoca do ano...       

segunda-feira, 24 de junho de 2013


Dia 0 e meio - A lenta espera

Meus amigos, eu disse que esta viagem começou estranha! Ao chegar no Galeão, descobri que a Air France tinha feito uma cagada com a reserva. Não vale a pena entrar em detalhes, mas o fato é que tive que comprar outro bilhete pra embarcar, e depois terei que pedir reembolso. Pois é. Mas, o negócio é esquecer cartão de credito e taxa de câmbio, e continuar firme na determinação de ferrar as contas externas do país, transformando meus reais em rublos!!

Escrevo do chatérrimo aeroporto Charles de Gaulle, depois de um voo tranquilo. Deu pra começar a ler o Pushkin e ver um bom filme do 007 (Cassino Royale). Convenhamos, não dá pra errar muito em filme do 007, é só colocar um sujeito boa pinta num terno bem cortado dirigindo um Aston Martin e dando uns tiros em terroristas. Nos intervalos, o roteirista arruma uma senhorita charmosa para protagonizar diálogos com certa voltagem erótica, e pronto. Mais um 007. 

 Lendo aqui o guia, descubro que o 'Cavaleiro de Bronze' é um monumento conhecido na cidade. No livro do Pushkin, é a estátua de Pedro O Grande, o imperador que modernizou a Rússia de forma autoritária (o que NÃO ERA autoritário no começo do século XVIII?) e iniciou a construção de São Petersburgo em 1703. No livro, o principal personagem amaldiçoa a estátua por conta de uma inundação trágica que leva a casa de sua amada. Até faz sentido, pois a cidade foi construída em cima de uma área pantanosa. Mas, a estátua não aprecia esse momento de cidadania e passa a perseguir o herói, e a coisa não termina bem, é claro. Afinal, não deve ser lá muito legal ser acossado por uma estátua equestre grandiosa, ainda mais representando Pedro I. Sugestão de conto brasileiro: imaginem o cabeção de Vargas perseguindo um pobre coitado desiludido ali na Glória. Não sei se teria o mesmo efeito trágico.

domingo, 23 de junho de 2013

Dia 0 - De presentes e livros

Como se sabe, uma viagem sempre começa antes do avião decolar. Compra de passagem, reservas, planejamentos, esquemas de última hora etc. Minha parte favorita, porém, é a compra de livros ou revistas para ir matando o tempo em aeroportos, poltronas e quartos.No caso desta viagem, eu ainda decidi comprar presentes para os meus anfitriões - Elena e Viatcheslav -, que gentilmente abriram sua casa para mim.

Primeira dúvida: o que comprar pros russos? Pensei em livros de fotos, mas a maioria me pareceu pesada e sempre na linha "praia-natureza". Coletânea de contos de autores brasileiros em inglês? Não consegui achar, embora esteja quase certo que exista. Já irritado, fui para seção de música popular, que, afinal, é uma das grandes contribuições do Brasil pro mundo. DVD do filme do Nelson Pereira sobre Jobim foi fácil escolher, mas resolvi enfiar também o documentário sobre Tropicália. Fiquei com a dúvida: seria o Tropicalismo algo traduzível para russos? Afinal, pra entender aquela genial bagunça, seria preciso captar o significado do nacional-popular nos anos 60, a obsessão nativa pela "questão nacional" e por aí vai. Além disso, o quão "universais" seriam aquelas canções? Dúvidas de periféricos, sem dúvida. Nenhum alemão escrevendo sobre esfera pública ou razão comunciativa jamais parou para se perguntar se o que ele diz faz qualquer sentido para um sujeito que pega ônibus no Rio de Janeiro. Então, vamos de tropicalismo mais Jobim, e não se fala mais nisso.Até porque, de obsessão com o nacional, os russos também entendem. E desde muito tempo

Para meu consumo próprio, pensei logo nos russos, é claro. Um volume grande dos contos do Nabokov parecia legal, mas era muito pesado (nesse momento, senti falta de um Kindle ou Kobo). Na seção de poesia, me deparei com uma tradução bilíngue do Pushkin, de seu famoso poema "O Cavaleiro de Bronze", que se passa em São Petersburgo. Beleza pura. Mas, por que não um livro escrito por não-russos sobre a cidade? E lá fui eu com Bernardo Carvalho e seu "O Filho da Mãe", que tem como pano de fundo a crise entre Rússia e Chechênia. Alias, para quem não nunca ouviu falar, Bernardo Carvalho tem um livro sensacional chamado "Nove Noites", obrigatório para quem é cientista social, em especial antropólogo. Vejam aqui.

A nota cômica ficou por conta das minha distração. Entre livraria, caixa automático e casa, esqueci DUAS vezes a sacola de livros e presentes em diferentes lugares. DUAS vezes, meus amigos. Sei não, esta viagem começou estranha.  

sábado, 22 de junho de 2013

Partindo...

Amigos, como alguns de vocês sabem, parto neste domingo para São Petersburgo (ou Piter, como aprendi nas minhas aulas de russo), onde permanecerei por uns dez dias (sem contar deslocamentos). Pensei que uma forma legal de manter contato com vocês seria por intermédio de um blog, onde eu narrasse o dia-a-dia da viagem. Isso também evitaria ter de contar as mesmas histórias diversas vezes, o que torraria a paciência de qualquer um. Além disso, manter este registro me ajudaria no meu próprio trabalho de memória, pois não sou um fotógrafo decente. Acho que a escrita me é um pouco mais familiar. 

O método é simples: vou tentar escrever um post diariamente. Como também não domino muito bem as ferramentas deste troço, não esperem muitas imagens ou links. A ideia é apenas registrar um pouco das minhas andanças por lá. Reconheço que isso parece um pouco egocêntrico, afinal por que diabos as pessoas queridas se interessariam em ler sobre o meu cotidiano de férias? Não sei, mas acho que não custa nada, além de ser uma forma de continuar "falando" com todos enquanto o Brasil pega fogo. Dito de outra forma: o blog é uma desculpa pra eu imaginar vocês na minha viagem.