Dia 3 - Hermitage II, Museu Russo e Jobim em Petersburgo
Meus amigos, ontem dormi vendo o jogo do Brasil na televisao. Em russo, e claro. Foi um pouco frustrante, pois consegui entender uns 5% do que o narrador falava. E ainda dormi no meio do segundo tempo, pois ja passava de uma da matina aqui. Mas, e uma experiencia otima ver um jogo do Brasil sem Galvao, Sportv e adjacencias. Coisas que a Russia te proporciona...
Hoje foi o dia do retorno ao Hermitage. Desta vez, a ideia era uma camelagem inteligente e direcionada. O plano era subir direto para o terceiro andar, desviando das excursoes e das hordas, ate chegar ao local da arte oriental e bizantina. Joazinho-moleque, Joazinho-raiz, esse personagem que se pretende malandro, se ferrou, pois a secao de arte bizantina esta fechada para reforma. Tudo bem, pois no caminho pra la me deparei com as ABSURDAS galerias dedicadas a arte francesa do XIX e do XX. Quer ver Gauguin? De monte, com varias telas `polinesias` conhecidas. Quer Picasso? Duas galerias so pra ele. E Matisse, Monet, Pissaro, Sisley e uma pa de impressionistas e pos-impressionistas. Serio, so perde pro Museu D`Orsay, que tem a obvia vantagem de ser em Paris. Na descida, dei um pulo na galeria de consolacao que os diretores prepararam, com uma amostra da colecao bizantina dos caras.
Voces vao me perguntar: o cara vai pro museu na Russia pra ver arte francesa e bizantina? ARRA (com acento no segundo A, please), respondo eu. Lembrem de uma coisa: este pais viveu a tensao entre ser Ocidente e Oriente. Sao Petersburgo e, na descricao de Pushkin, uma `janela para o Ocidente`, pois foi construida no intuito de modernizar um pais atrasado e agrario, fechado em si mesmo. Na producao artistica russa do seculo XIX-XX, este `desejo de moderno` e fundamental, por isso faz todo sentido ver uma imensa colecao de franceses no Hermitage. E um indicio fudido do gosto da elite local. Bueno, e Bizancio, entra onde, fio? ARRA 2, respondo eu. Este e um pais fundado na fe ortodoxa. Isto e, a fundacao cultural e religiosa da Russia foi baseada no cristianismo oriental, cuja sede foi o Imperio Romano do Oriente, capital Bizancio (ou Constantinopla, ou Istambul atualmente). Assim, o mundo medieval russo foi em larga medida moldado por essa influencia. Isso significa: icones religiosos como obsessao artistica de um povo.
Beleza, e ai? Isso da liga? ARRA 3, da sim, nego. Basta ir ao Museu Russo e subir ao segundo piso, na sensacional exibicao da arte moderna dos caras. Ali voce vai ver que futuristas, construtivistas e outros por vezes recorriam a essa arte `oriental` e religiosa para produzir temas e formas absolutamente modernas. Tipo esse quadro da Goncharova, baseado no classico tema da Madona com seu filhote . Aos comunas de plantao, nao preciso lembrar que essa fusao entre modernismo e simbolismo religioso arcaico deu numa mistica revolucionaria doida e utopica. Pra quem duvidar e tiver saco, va ate o final deste famoso poema de Aleksandr Blok, intitulado Os Doze. Doze soldados vermelhos vagueiam numa noite escurta...quantos eram os apostolos mesmo? ARRA 4.
E com esses pensamentos bizarros passei a tarde no Museu Russo, que e muito foda. Nao ha hordas nem excursoes, e da pra voce ficar de frente com perolas numa sala vazia, ruminando. Outra coisa interessante para os comunas de plantao. Nas galerias dedicadas as decadas de 1940, 1950, 1960 etc, nao ha mencao ao conceito `realismo socialista`. Eles mal falam de socialismo. E, nao sei se por acaso, nessas galerias nao ha comentarios no audio-guia. Puxado isso, nao? Outro comentario inocente: aqui, as salas nao sao cuidadas por segurancas, como no Brasil, mas por vovozinhas entre 85 e 112 anos. O efeito MEDO e o mesmo, garanto.
No intervalo entre um e outro museu, fui almocar na mesma rua que jantei ontem. Desta vez, fui para um cafe que servia tres pratos por 300 rublos, o que e bem baratinho pros padroes locais (tipo 8, 9 euros). Isso incluia saladinha, sopa, prato principal e cha. Ai vem o drama: a menina (nao devia ter mais do que 15) nao falava nada alem de russo. Bueno, fui perguntando (`carne ou peixe`) coisas basiconas, mas a sopa escolhi sem descobrir muito bem o que era. O prato principal saquei que era carne, mas nao tinha ideia que era figado rsrs. Isso me leva a um comentario lingusitico que vai interromper esse roteiro de viagem.
Como alguns sabe, estudo russo ha praticamente 4 anos. Entretanto, meu dominio da lingua e menor do que o frances, que estudei por um ano e meio. Isso e muito frustrante, devo dizer. Dos 4 comandos da lingua (ler, entender, escrever e falar), eu me sinto melhor lendo, mas mesmo assim hoje comprei um detergente meio no susto no mercadinho aqui perto. Uma das razoes pra essa dificuldade chama-se DECLINACAO. Explicando rapidamente: em portugues ou ingles, quando voce constroi frases como `eu vi a escola`, `eu estou na escola`, `eu estou perto da escola`, `um pais se constroi com escola`, a `escola e bonita` ou `deram a (craseado) escola um novo laboratorio`, em todas escreve-se escola (ou school) da mesma forma. Em russo, cada uma dessas frases acima faz parte de um caso especifico, e isso implica escrever de forma diferente escola, caso a palavra seja sujeito, objeto direto, objetivo indireto etc. SACARAM O TAMANHO DO PROBLEMA? Pois e, e por que insisto nisso, nem eu sei explicar direito. Juro. Bueno, de volta ao roteiro...
Na saida do Museu Russo, rodei atras de um bar para tomar uma cerveja e ler o livro que tinha comprado sobre arte moderna (em ingles, gente). Acabei no Cafe Literatura, que reza a lenda ter sido lugar de predilecao de Pushkin e outros grandes do XIX. Pedi mesa na secao de fumantes (ah, os russos), e fui imediatamente defumado numa densa atmosfera de tabaco. Bebi uma cerveja tcheca (acabaram sendo duas) e comi um aperitivo que era uma panqueca de batata com salmao. Juro que estava bom, e por ali fiquei mais de uma hora, esperando o sol baixar e o metro esvaziar. Enquanto isso, comecou uma musica ao vivo, e a cantora logo atacou com dois orgulhos brasileiros: Insensatez e Corcovado. Em ingles, infelizmente. Mais uma vez, confirma-se que a bossa nova e uma das unicas credenciais culturais do Brasil no mundo, e na noite branca de Petersburgo, Jobim valia tanto quanto Cole Porter, que foi tocado a seguir. Fico me perguntando sobre essa relacao entre particular e universal. Ca esta o brasileirinho valente, que leu e se emocionou com Tolstoi , Dostoievsky, Gogol e cia, e que ve na cultura russa uma combinacao Oriente-Ocidente muito poderosa. Eu e muitas pessoas. Mas, e se olharmos ao contrario? Alem de Jobim, o que falaria a sensibilidade de um russo vindo a partir do nosso canto do mundo? Pelo menos na casa onde estou, alguem foi tocado. A Elena Pavlova, que fala espanhol, estava lendo um texto da Liv Sovik sobre o tropicalismo e suas polemicas, que utilizava como eixo de discussao a cancao `Haiti` de Caetano e Gil. Se ela conseguiu entender toda essa confusao, fico feliz.
Amanha nao sei ainda o que vou fazer, mas e provavel que o post seja mais relacionado com o dia-a-dia das ruas e com observacoes pitorescas sobre os russos (e as russas, pois sei que ta cheio de negozinho malicioso querendo ler isso). To so juntando umas coisas na cabeca...
Obrigado, Prof. Pasqualenko!!!
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