quarta-feira, 26 de junho de 2013

Dia 2 - Hermitage parte I, ou Camelagem Indoors

Meus amigos, hoje eu tinha acordado bem. Na noite anterior, dei uma saida para as margens do Neva para sentir um pouco do clima da `noite branca`. Foi um pouco surreal. Esta area nao e tao movimentada, e por vezes me vi andando sozinho numa avenida enorme, cercado de predios horizontais aparentemente desertos, sob a `luz` de 22 horas. Nao da medo, mas uma sensacao estranha de irrealidade. Chegando nas margens (depois de atravessar uma movimentada rua de mao dupla ao modo brasileiro), o cenario era tranquilo: alguns casais passeando, uma moca lendo, uns sujeitos tomando uma cerveja na mureta etc. Fiquei por ali uns 40 minutos, pegando um vento e vendo o horizonte. Foi o suficiente para perceber que faltava um elemento civilizador fundamental ali: a camelotagem, ou melhor, o vendedor ambulante de cerveja. Nao tinha um russinho ali ganhando aquele dinheiro honesto vendendo mercadorias sem imposto. Ai enfraquece, ne?  Se fosse na Urca, imagina o que o brasileiro empreendedor nao faria podendo vender cerveja na mureta durante a noite toda, pois o sol nao se poe? Ruminando essas filosoficas reflexoes, retornei e dormi tranquilo, dia ainda claro.

Hoje acordei na disposicao. Como prometera a mim mesmo, fui dar uma corrida no parque ao lado, aproveitando o solzinho que batia. Varios russos fazendo a mesma coisa. Depois, retonei para `casa` para tomar um banho e preparar um cafe da manha reforcado, pois queria ficar bastante tempo pelo Hermitage antes de parar para almocar. E, escaldado pelo sol do dia anterior, resolvi que iria de metro. E assim foi.

Desta vez de bermuda, andei uns 15 minutos ate a estacao Chernichvskaya, apelidada assim por conta do escritor Chernychevsky, autor do classico ` O que Fazer`, que inspirou Lenin. 28 rublos a passagem, que na verdade e uma moedinha do tamanho da nossa de 10 centavos, que voce deve inserir na roleta. Feito isso, eu desci. E desci. E desci um pouco mais, numa escada rolante interminavel que parecia me levar ao fundo da terra. Como se sabe, as estacoes de metro na Russia sao prodigios de engenharia. As de Moscou sao mundialmente famosas, mas a de Piter tem seu valor. Em nenhuma delas esperei mais do que 15 segundos por qualquer trem. Depois de fazer uma baldeacao, saltei bem perto do lendario Hermitage.

Alguem ai ja viu o filme Arca Russa? Neste filme, o diretor fez um plano-sequencia de 90 minutos, utilizando 35 salas do Hermitage, numa especie de delirio poetico que faz uma viagem pela Historia do pais. Pois e, la estava eu prestes a fazer meu percurso pessoal por este que e um dos maiores museus do mundo. 

Joaozinho-moleque, Joazinho-raiz, eu tinha comprado antes pela internet um ingresso para dois dias, pois sabia da imensidao do negocio e do tamanho das filas. Pois e, deixem-me entao dar um conselho sabio aos que sonham vir aqui um dia: nao venham ao Hermitage no final de junho ou comeco de julho. Sao HORDAS, eu disse HORDAS de grupos guiados das mais diferentes nacionalidades, todos liderados por um guia com um microfone pequeno que vai correndo por dentro dos saloes com a massa. No caminho, as hordas se trombam, e Joazinho foi quase esmagado numa das paredes do Palacio de Inverno. Seria como um sonho do Darlan Montenegro ou do Guilherme Leite: esmagar um burgues na parede do Palacio de Inverno.

Dito isso, o lugar e espetacular, mesmo com as hordas. Eu comecei com um tour pelo Palacio de Inverno e por outros aposentos imperiais. Sim, o Hermitage e um complexo, com museus no sentido `pictorico` do termo e predios imperiais anexos. E o Palacio de Inverno e aquele mesmo, o lugar cuja tomada representou o episodio definitivo da Revolucao Russa de 1917. Nao preciso dizer que Catarina II e outros que por la passaram capricharam, contratando arquitetos italianos e mandando bala no rococo, no barroco e no neoclassico (sim, houve um incendio em 1837, e depois o Palacio foi reconstruido).

Depois deste tour, eu pedia agua em todos os sentidos do termo. As pernas e a cabeca doiam, e o calor la dentro era intenso. Para piorar, o audio-guia que peguei quebrou duas vezes, obrigando-me a retornar ao ponto de entrada mais de uma vez para pegar um novo. Ai o Joaozinho-moleque foi ate o cafe rangar algo para poder continuar a camelagem indoors. Pois e, eu e varios malandros-agulhas de varias nacionalidades, todos espremidos numa fila para pegar uns sandubas insossos e uns doces sagazes. Catarina, minha nega, nao imaginaste que um dia hordas plebeias iriam tomar refrigerante com sanduiche no terreo de seu cafofo, ne filha? Tocqueville explica.

Refeito, parti para as galerias dedicadas a arte italiana. Muita coisa interessante, em especial da Renascenca, mas o delirio mesmo foram as galerias dos mestres holandeses. Eu acho que ha mais quadros do Rembrandt no Hermitage do que em toda Amsterda. Sem sacanagem. Duas perolas dele, O Retorno do Filho Prodigo , e Descida da Cruz estao la, assim como outras. E, nas galerias laterais, tem Haals, Rubens, Eeckhout, entre varios outros. Cenas da vida burguesa, paisagens e, claro, os grandes retratos feitos por esses caras. Mais uma vez, Rembrandt, com seu Retrato de um Velho Judeu . Tava de bom tamanho pra mim. 

Alias, foi na galeria de Rembrandt que fui quase atropelado novamente. Eu tinha que ver os quadros nos intervalos entre os grupos, ou escolher ver alguns menos cotados que nao atraiam multidoes. E, no caso dos holandeses e flamengos, tinha de monte. Satisfeito, desci para o terreo e sai para a margem do Neva. A cabeca doia muito, portanto tomei uma decisao sabia e refletida: entrei num bar que ficava dentro de um barco atracado, com o objetivo de tomar cerveja. Ah muleque! Escolhi uma cerveja siberiana, que parecia decente, nao estivesse completamente quente. Mesmo assim, consegui me arrastar mais uns 500 metros para ver a Praca dos Dezembristas, onde fica a Estatua do Cavaleiro de Bronze (ver primeiro post). A Praca e bonita, e tinha varios russos tomando sol, jogando frisbee ou trocando uma ideia. No caminho para o metro, passei por uma rua chamada Malaya Morskaya, onde varios escritores e intelectuais moraram. A rua tinha um clima um pouco mais intimista e aconchegante, e como havia uns cafes com mesas na calcada, pensei: porra, depois de sanduba tosco, mereco tirar uma onda de burgues russo estilo XIX, ne nao? E assim foi. Sentei e comi um salmao defumado sagaz, arrematado com sorvete de baunilha. Amigo, os russos SACAM MUITO de sorvete, e fato. Vende em qualquer lugar, e o povo capricha na elaboracao. E este valeu muito, quase senti as pernas de novo. E disse QUASE. Porem, foi o que eu precisava para conseguir me arrastar ate em casa, nao sem antes atravessar novamente meu parque proximo para cortar caminho, enquanto pensava que esta tinha sido a parte I. Afinal, tenho ingresso para amanha e uma galeria inteira de arte bizantina que to doido pra ver... 

Sei que este post ficou um pouco como guia de viagem ruim, mas prometo escrever algumas coisas menos obvias nos proximos dias, como impressoes sobre o povo, cultura, lingua etc. O problema e que a cidade e tao GRANDIOSA que a arquitetura e a monumentalidade se impoem sobre o intimismo e a subjetividade. Eu terminei ontem de ler o livro do Bernardo Carvalho (ler o primeiro post grande), e ele disse que Sao Petersburgo foi construida visando a visibilidade. E isso mesmo, em qualquer lugar que voce entre, sente-se pequeno numa avenida ou numa rua que te olha de cima e te `encaixa` dentro de um quadro no qual o poder imperial e o `olho` que guia a perspectiva. Com o sol batendo do jeito que esta, eu ando pelas ruas quase fugindo - do Imperio e do calor. Mas, nao tem descanso aqui. Literalmente, a cidade nao dorme. Hasta la manana.       

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