Dia 4 - Poroes e ruas
Meus amigos, hoje ate acordei animado, pois olhei para fora e estava nublado. Para melhorar a situacao, o simpatico termometro da cozinha acusava uns 21 graus. Com felicidade indescritivel, coloquei uma calca e sai na rua. Meu destino: Fortaleza de Pedro e Paulo, a fortificacao criada por Pedro O Grande para marcar a fundacao de Petersburgo, que se localiza num territorio estrategico arrancado em uma guerra com os suecos.
La estavam as excursoes e as hordas, mas como o espaco e aberto, dava pra driblar geral. Primeira parada foi na Catedral de mesmo nome, uma perola do barroco deles. Muito ouro, religiosidade derramada e iconografia de profetas e santos, sempre vinculada as figuras da familia real. Nessa Igreja estao enterrados varios membros da dinastia Romanov (la esta o proprio tumulo de Pedro I), e algumas tumbas de marmore sao realmente muito bonitas. Ha uma capela anexa pra homenagear o ultimo czar e sua familia, mortos depois da Revolucao de 17.
Andando alguns metros em diante, entrei na Prisao Trubetskoy. Foram nas dezenas de celas dessa prisao que o czarismo encarcerou boa parte dos seus presos politicos. Enquanto andava pelas galerias e celas, lia os retratos, nomes e biografias de varios revolucionarios russos da segunda metade do XIX. Basicamente homens e mulheres (muitas mulheres) jovens, que faziam parte do movimento narodnik (o populismo russo), que pregava a ida dos intelectuais ao povo. Essa molecada se embrenhou no mundo rural russo para `aprender` com os homens comuns as virtudes da vida comunitaria, e ajuda-los a fazer a revolucao (e claro que os camponios nada queriam com aquela juventude urbana e intelectualizada). A decada de 1870 foi momento fundamental desse movimento, que foi estudado com brilhantismo por um italiano chamado Franco Venturi, num livro nao-traduzido para portugues chamado Il Populismo Ruso. Na decada de 1880, a rapaziada partiu para acao violenta, e se tornaram os pioneiros do terrorismo moderno. Grupos como `Vontade do Povo` e `Terra e Liberdade` conduziram acoes de sabotagem e assassinato, e o proprio czar Alexandre II foi morto num desses atos (lembram do post em que falei sobre a Catedral do SALVADOR DO SANGUE DERRAMADO?). Na prisao Trubetskoy, varios foram encarcerados e vigiados 24 horas por dia. Havia castigos fisicos, solitaria, tudo aquilo que conhecemos.Bolcheviques por la passaram tambem, como Maximo Gorky, e ate mesmo Trotsky (tirei foto, Guilherme Leite).
ALIAS, o que os bolches fizeram quando tomaram o poder em 1917? Fecharam a prisao. MAS, nao por muito tempo, pois em 1918 o chamado Terror Vermelho comecou a enfiar os presos politicos la dentro. Desta vez, duques, generais, mas tambem cidadaos comuns da cidade. Ate recentemente, arqueologos estavam descobrindo resquicios de fossas coletivas, datadas exatamente do periodo 1918-1922. Isso tudo me fez pensar em como os `dois tempos` da cidade por vezes se conectam. O proprio irmao de Lenin foi preso em Trubetskoy, mas isso nao impediu que o regime sovietico utilizasse essa Bastilha czarista para organizar sua propria repressao. So pra reafirmar esta ligacao: no alto da Igreja, ha um relogio muito bonito, que duas vezes por dia executava o Hino czarista. A partir de 1917, ele passou a executar o Hino sovietico. No mesmo lugar, no mesmo horario. So mudava a musica.
Como se ve, hoje foi dia de perambular pelos poroes de Petersburgo. E resolvi arrematar esse passeio alegre e pra cima com uma visita ao sombrio Museu da Historia Politica Russa. Demorei uma meia hora pra achar, eu realmente tenho problemas graves com mapas em geral, ou com a propria concepcao de geografia, nao sei. Infelizmente, isso me fez perder tempo precioso, pois o museu fechava 18 horas. La chegando, entrei direto nas salas com fotos, arquivos e documentos do periodo sovietico. NAO TENHO PALAVRAS para descrever o que e aquilo para alguem interessado na historia da revolucao. Na verdade, tenho palavras: sao varios mostruarios preciosos, com relatorios e declaracoes originais, fotos de reunioes do Politburo, quepes, uniformes, posters de propaganda etc. Os textos eram bem criticos, descrevendo com precisao os mecanismos de repressao politica, a coletivizacao forcada etc. Em uma das salas, apertei um botaozinho pra ouvir um discurso original da Krupskaya nos anos 30...subindo, voce segue a historia pos-Stalin, ate o fim da URSS. Vale muito a pena, e e um museu vazio, ja que nao creio que muitos turistas tenham um grande interesse em fotos de comissarios regionais do PCUS e esse tipo de coisa.
Saindo de la, desci calmamente pela Ponte da Trindade, a maior da cidade, bonita demais. Tirei uma foto, quase atropelei uma moca, quase fui atropelado por um skate, e me deparei com o Jardim de Verao de Pedro. Maneiro isso, ne? O sujeito ta de saco cheio com o pais, resolve fundar uma cidade moderna e faz pra si um jardinzinho, tipo um puxadinho perto do palacio. Obviamente, o negocio e sensacional, no modelo dos grandes jardins franceses do XVIII. E la finalmente meu espirito saiu um pouco dos poroes e flutou pelas ruas da cidade. Enquanto descansava num dos bancos observando as pessoas passarem, organizei meus pensamentos sobre as pessoas, a comida e a vida aqui, como eu prometera fazer no post anterior.
Os russos nao sao simpaticos, mas nao sao grosseiros. Niguem vai puxar papo contigo ou sorrir pra voce de bobeira, mas em nenhum momento fui hostilizado ou mal tratado. Eles podem ser bruscos, eu diria. Mais de uma vez, olharam com impaciencia pra mim, como se fosse uma obrigacao dominar essa lingua bizarra que por vezes povoa meus pesadelos com suas MALDITAS declinacoes. Por outro lado, eles gostam e curtem demais o verao e a vida na rua. Os parques estao sempre cheios de gente jogada na grama, tomando sol, cerveja e fazendo exercicio. Tambem vejo muitos quiosques vendendo frutas, sempre cuidados por vovozinhas que ficam sentadinhas la dentro, oferecendo cerejas e morangos a quilo. So nao tem mais desses quiosques do que farmacias e mercados 24 horas.
Comida, alias, nao esta sendo um grande problema. Hoje fui num restaurante A QUILO dentro da Fortaleza. Fui apontando as coisas e pegando. Na hora da bebida, pedi cerveja, que me foi entregue num copao de meio litro. MEIO LITRO. E claro que era muita comida. Tinha o borsch, desta vez gelado. Tinha tambem arroz com uma especie de panqueca de ovo com frango, e uma salada. A panqueca estava deliciosa, mas decidi que nao vou com a cara do borsch, por um motivo simples. Nao tenho grandes paixoes por beterraba. Alias, alguem tem grandes paixoes por beterraba?? Aqui em casa, tenho comido salame, caviar, mel, pao e biscoito, alem de iogurte. Convenhamos, nao e vida de Imperador, mas esta longe de ser a dieta de um resistente em Leningrado durante o cerco nazista.
As mulheres. Sim, elas sao muito bonitas. E estilosas, algo facilitado pelo biotipo anguloso e esguio. No verao, so usam saias, minissaias, vestidos, shortinhos de cintura alta etc. E, na maior parte das vezes, usam bem, com nocao. De modo geral, elas tem um aspecto meio selvagem, diferente daquele olhar languido brasileiro. Ou olham de cima, com desprezo, ou olham direto no teu olho - para depois, olhar novamente com desprezo.
De modo geral, a vida e corrida, e quase ninguem flana de bobeira. A geografia da cidade nao ajuda, pois, como disse, e uma urbe planejada, com grandes avenidas, pracas gigantescas, e predios monumentais para exibicao de poder imperial. E uma cidade-Imperio, e os `suditos` sao sempre pequenos nela. Por isso reclamo tanto de andar no sol aqui. Dobrar uma rua e depois seguir nela ate outra e um processo que pode levar 20 minutos, por conta da largura e comprimento das grandes avenidas.
Mas, eles acabam se ajeitando. Os parques funcionam como areas de alivio,e o meu aqui perto de casa ja me e familiar. Tanto que, ao entrar nele algumas horas atras, voltando do passeio, resolvi me juntar aos nativos e comprar um sorvete no quiosque. Coisa de 2 reais, e sai com uma casquinha de chocolate, flanando pelo caminho principal enquanto via a multidao branca estendida na relva, como se na praia estivessem. Mesmo na mais imperial das cidades as pessoas conseguem arranjar espacos de intimidade e descanso...
Falando em Imperio, amanha e dia de nobreza. To pensando em ir para Peterhof, especie de Palacio de Versalhes local. Mas, ainda nao estou decidido. Ainda tem uns poroes ai que quero checar...
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