sábado, 29 de junho de 2013

Dia 5 - Solidao em Peterhof ou O Cansaco de Quem Viaja

Meus amigos, eu sei que ninguem gosta de ser `turista`. Todos preferem se imaginar como `viajantes`, gente esperta que viaja pelo Brasil e/ou pelo mundo em busca de experiencias mais autenticas e menos caretas do que os `turistas`. Um bar escondido, o restaurante que nao esta no guia, a `experiencia` que so e acessivel para os que nao viajam com pacotes e sabem mergulhar na cultura local. Bom, deixa eu dizer algo: todo mundo acaba sendo turista. Sentimos fome, cansaco, estranhamento, e, principalmente, nos sentimos exaustos pelo excesso de informacoes, objetos, pessoas e predios. Na nossa cidade, andamos com os sensores desligados, mas, na viagem, estamos o tempo todo alertas, buscando novidades e encantamento. E isso CANSA. E isso ai descreve Joaozinho em Peterhof, o palacio campestre de Pedro I e seus descendentes.

Acordei cedo, pois sabia que seria uma viagem razoavelmente longa. O complexo de palacios e jardins fica num suburbio ao sul de Piter, e e preciso fazer uma combinacao entre metro e onibus, num total de quase uma hora de viagem. E assim eu fui, sem grandes problemas. A entrada e muito bonita, uma alameda central com uma fonte espetacular no meio e, ao final do caminho, a parte frontal do palacio. A esquerda, a entrada para os jardins `de baixo`, que sao uma das grandes atracoes do lugar. Comprei o bilhete, e fiquei ate feliz, pois a bilheteira me perguntou se era russo, ja que me dirigi a ela na lingua nativa. Aqui, todos os museus tem precos mais baratos para locais. Entrei com o sol de 11 da matina batendo forte, e acabei dando uma sorte grande: exatamente nesse horario os chafarizes da espetacular Grande Cascata sao ativados ao som de um hino. O povo adora, e geral levantou os tablets pra fotografar. Alias, percebi que a massa de turistas e basicamente russa neste local. Fiquei andando pelos jardins por um tempo, e o tal cansaco bateu. Era muito sol, era muita gente, era muito calor, e nao havia cidade em volta, so centenas de pessoas batendo perna pelas alamedas, bricando nas fontes com as criancas e tomando sorvete. Logo senti fome, e resolvi comer um blini, iguaria tipica daqui. E basicamente uma panqueca com recheio, e escolhi a de carne moida com molho de alho rs. Tava decente, nada espetacular. Nada que leve carne moida e alho pode dar muito errado, nao? Em seguida, retomei a camelagem e resolvi pagar o ingresso para o Grande Palacio. Ai o negocio pegou.

Primeiro, havia uma fila para comprar os ingressos, que terminava numa area sem sombra. Joaozinho entra e espera uns 40 minutos nela. Depois, havia outra fila, na qual Joazinho tambem esperou quase o mesmo tempo. Eles so deixavam entrar um grupo de cada vez, dada as dimensoes restritas dos corredores internos. Quando finalmente entrei, havia outra fila, desta vez para colocar plasticos nos calcados (nosso Museu Imperial em Petropolis faz a mesma coisa). E, depois, todos se amontoam para outra fila, a partir da qual o `passeio` realmente se inicia. Eu acabei entrando no horario em que as visitas guiadas sao feitas para grupos russos, por isso nao ganhei audio-guia nem acompanhamento especial. Para piorar, eu sempre estava `espremido` entre dois grupos de russos, e me posicionar dentro das salas era complicado paca. Acabou sendo divertido, pois um grupo de brasileiros estava na mesma situacao, e a tentativa deles de tirar uma foto proibida dos interiores do palacio me deu aquela saudade do patropi e de sua gente malandro-agulha... 

O palacio? Espetacular, uma mistura entre aposentos barrocos, ornados em ouro e com decoracao grandiosa e excessiva, com salas mais classicas e `limpas`. Mas, confesso que o cansaco do turista estava batendo forte, e eu so pensava em voltar. Desta vez, quis voltar de barca, que e BEM mais caro, mas evitaria uma longa camelagem suburbana com o sol a pino. E la fui eu pro pier, onde comprei meu bilhete e me dirigi ao local. Porem, ainda iria demorar meia hora. E la estava eu, num sol de rachar coco, sentindo aquela solidao imensa e o cansaco mencionado acima! Vislumbrei uma sombra no final do pier, e pra la me dirigi. Tinha um toco de madeira pequeno, sentei ali, e acendi um cigarro. Imaginem a cena desoladora: Joazinho sentado num toco de madeira no final do pier de Peterhof, suando desgracadamente, a cabeca latejando e as pernas doendo. Amaldicoei a dinastia dos Romanov e desejei a explosao de toda aquela merda. Finalmente, entrei no barco, onde aproveitei para formular um plano final que poderia redimir a solidao. Esse plano deveria envolver tres coisas muito importantes: AGUA, CERVEJA E SOMBRA. E assim fui para o Gosti, restaurante onde tinha estado dias atras comendo um salmao muito bom. E valeu muito a pena. Cerveja `branca` de meio litro, risoto escuro com polvo e agua, alem de sombra e uma rua mais vazia. Essa era a solidao que eu precisava pra me sentir menos esmagado e destruido. Nao economizei um centavo, porque PORRA eu merecia um pouco de boa vida depois de tantas filas e tanto sofrimento...

Voltei feliz pra `casa`, a despeito de ter enfiado o pe em asfalto fresco em plena Avenida Nievsky. Troquei mais dinheiro, e ao chegar no parque aqui ao lado, o ja adorado Tavrichesky, onde o vento bate, os caminhos sao curtos e as arvores fazem muita sombra, aproveitei para tirar a camisa e me juntar aos locais. E la fiquei algum tempo, pegando sol. Desta vez, nao era o sol massacrante de horas atras, nos jardins de Peterhof. Agora, ja era a cidade que conheco um pouco mais, e estava com espirito levantado depois da refeicao e da cerveja (e precisava queimar o torso, que nesta altura esta em franco contraste com o pescoco roxo e a cabeca grande e vermelha). E decidi: domingo, CHEGA de camelagem, palacios e museus. Tenho um ingresso para o Teatro Mariinsky, para uma apresentacao de bale russo. Esse sera o unico programa fixo, e pretendo arremata-lo com um jantar em qualquer lugar onde haja mesa livre, bebida gelada e boa comida. Afinal, se e pra ser solitario, que seja em grande estilo...         
                

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