quarta-feira, 3 de julho de 2013

Dia 10 - Ulitsa Tverskaya, 20/50

Meus tres leitores, o decimo dia, na verdade, e o dia da partida. Estou em casa arrumando as coisas, pois o meu casal de anfitrioes vai passar daqui a uma hora para me pegar e levar ao aeroporto. De fato, muito gentis. Hoje, portanto, falo um pouco do meu lugar aqui em Piter, que fica no endereco que e o titulo do post de hoje.

Eu fico bem no final da referida rua, em um predio em obras. O ponto historico mais importante proximo e o Instituto Smolny, dentro do parque de mesmo nome. Esse Instituto foi outrora um predio administrativo importante ocupado por Lenin. Infelizmente, tem que agendar visitas guiadas por la, e imagino que so em russo. Fora isso, a area e bem residencial e tranquila, e nao ouco nenhum barulho de noite. 

Reparei que boa parte dos predios aqui seguem a mesma estrutura: uma porta de ferro debaixo de um arco de entrada; um jardim ou area interna, que pode ser circular ou retangular, e onde os moradores estacionam seus carros; diversos apartamentos, de tamanhos variados, com entradas independentes, como se fossem blocos. O meu aqui tem um banheiro e uma cozinha, e 3 quartos um ao lado do outro, sendo que apenas um e efetivamente um quarto de dormir. Outro funciona como escritorio e o terceiro e uma especie de sala de estar `historica`, na qual a Elena guarda os moveis dos avos dela. 

Eu escrevo estas linhas no escritorio, no qual ha uma escrivaninha de frente para a janela. Tambem ha plantas, sempre a lembrar o meu fracasso principal nesta viagem: Elena me encarregou de regar regularmente as bichinhas, e obviamente so lembrei de faze-lo hoje de manha. Pelo menos uma planta me parece completamente morta. Que vergonha, meu Deus...

Passei muito tempo aqui neste apartamento. Dadas as longas noites brancas, nao era incomum que eu chegasse perto das 18, 19 horas, e ficasse ate meia noite lendo ou escrevendo alguma coisa. Esta experiencia, bem diferente da de um hotel, foi muito legal para que eu pudesse dar uma mergulhada maior na vida da cidade e na propria lingua.Ver os moradores chegando e saindo, sair pra fumar no jardim interno, folhear os livros dos anfitrioes, ver os jogos do Brasil narrados em russo, correr no parque Tvarichesky, tudo isso ajudou a me sentir mais `em casa` por aqui. Por isso agradeco demais a Elena e ao Slav (na verdade, forma curta para Viatcheslav) por essa oportunidade, e fico na esperanca de poder retribuir algum dia, la no Rio. Com certeza vou sentir falta deste apartamento, pois minha memoria da cidade esta completamente relacionada ao lugar de onde partia diariamente para explora-la, e para onde voltava com a sensacao de familiaridade tao reconfortante. Sao Petersburgo para mim vai sempre passar por essa rua, e, mais especificamente, por este apartamento. Fui.     

Dia 9 – Fe, patria e comercio…



Dia 9 – Fe, patria e comercio…

Meus tres leitores, hoje ja acordei cansado, embora tenha tido uma otima noite de sono. Ja sao muitos dias na rotina de viajante, andando mais de 3 horas por dia, quase sempre com sol na cabeca. Diante de tal fato, prometi que faria um programa mais light no meu ultimo dia inteiro aqui. Mas, acabou que nao foi bem assim…

No final da manha, fui ao mosteiro-memorial para Alexander Nevsky. Esse cara foi um principe de Novgorod, um dos mais importantes principados russos antes da unificacao do Estado, e derrotou os suecos numa batalha no seculo XIII, acho que em 1240. Depois disso, foi convertido oficialmente em santo, e o lugar que fui hoje foi construido em sua homenagem…

Visitei a catedral da Santissima Trindade, que nao e uma igreja turistica. Ela funciona normalmente como templo religioso, e quando cheguei estavam ocorrendo cerimonias. O plural se explica pelo que observei la. Primeiro, vi uma especie de sermao feito pelo padre, que estava todo vestido de preto, como e costume na fe ortodoxa. Depois do sermao, ele levou a cruz para os fieis, e cada um deles beijou o artefato. Em seguida, outro padre se postou em frente a um icone na parte traseira da igreja. La, iniciou uma longa e hipnotica oracao, enunciada enquanto  `defumava` o ambiente com incenso.  Os fieis, atras dele, faziam repetidamente o sinal da cruz enquanto se curvavam seguidas vezes. A Igreja e repleta de belissimos icones, e os russos costumam beijar os quadros, o que faz com que uma beata sempre esteja passando um paninho pra dar uma limpada basica.

A Igreja Ortodoxa e parte do grande ramo cristao, mas me parece bem mais mistica e `arcaicizante` do que a Igreja romana. Nao vou tentar dar peruada em assunto que desconheco (embora este blog seja prodigo em peruadas), mas talvez valha a pena perder um tempinho lendo este texto para entender melhor.

Em frente a Igreja, havia um cemiterio, no qual varios `herois da Uniao Sovietica` estao enterrados. Pois e, grandes herois do regime ateu foram homenageados com lapides em um dos simbolos da Russia profunda e religiosa, e, por que nao dizer, conservadora. Mais uma vez, os `dois tempos` de Petersburgo se conectam. No fundo, trata-se do comunismo reatualizando o antiquissimo nacionalismo russo. Alias, como exemplo disso, temos o grande filme do cineasta sovietico Sergei Eisenstein, intitulado justamente...Alexander Nevsky. Isso em 1938, no auge do regime stalinista!

Depois dei um pulo no Palacio Stroganoff (sim, e este mesmo o nome), grande mansao que virou um museu. Eu realmente me impressiono com o acumulo de dinheiro e poder nas maos da aristocracia russa do seculo XIX. Imaginem isso tudo depois da Revolucao de 1917…depois, almocei no Gosti, que ja apareceu por aqui antes. Embora tenha comido muito bem, fiquei um pouco irritado porque percebi que eles nao me deram o menu do `dia`, que e bem mais barato do que a carta normal. E aquela coisa, entrou com cara de turista, taca o menu normal. Acabei ficando menos chateado porque a comida elevou a alma, e isso sempre termina por redimir os pecados da burrice e da ignorancia. 

O resto do dia foi dedicado a um negocio que costumo odiar, e que se chama `fazer compras`. Desta vez, queria levar umas lembrancas para o Brasil, mas confesso que nao tive tanta paciencia. Uma feirinha ali, uma lojinha do outro lado, uma parada de hora e meia numa livraria enorme, e finalmente me vi no tal Gostiny Dvor, especie de centro comercial principal da cidade. E uma construcao muito bonita, e nos tempos `antigos` era um mercado mais popular. Hoje, tornou-se uma imensa loja de departamentos, e voce vai andando de um estande para outro em sequencia, ja que nao ha divisorias. Mas, e a mesma coisa de qualquer shopping do mundo. Nao sei como consegui ficar meia hora ali, mas consegui. Inutilmente, e claro.

Acabei comprando umas besteirinhas, mas nada de relevo. Enquanto andava de volta para casa, em mais uma longa caminhada de uma hora de duracao, pensava que esta cidade talvez nao tenha mudado tanto assim. Claro que 70 anos de comunismo contribuiram para produzir uma sociedade bem fechada em si mesma, mas Sao Petersburgo sempre fora cosmopolita e imperial, um porto aberto para a Europa e um centro urbano para os negocios e para exibicao de poder. Aqui, a conjuncao entre fe, patria e negocios nao parece ter dado curto-circuito, pois esta na genealogia do lugar…meu passeio hoje resumiu bem essa equacao. 

terça-feira, 2 de julho de 2013

Dia 8 - Cenas da rua de Piter

Dia 8 - Cenas da rua de Piter



Meus amigos, hoje foi um dia dedicado a camelagem cultural. Andei muito ate achar o Museu da Vanguarda  de Sao Petersburgo (que, na verdade, tem um nome algo exagerado), e depois dei um pulo na casa de Dostoievsky (na verdade, ele morou la 3 anos apenas. Durante sua vida inteira, morou em mais de 20 lugares, pois estava sempre devendo dinheiro). Foi bem legal, em especial a casa-memorial, que tinha um audio-guia excelente para acompanhar a visita, mas hoje gostaria de escrever observacoes mais gerais sobre o que vi pelas ruas daqui. A julgar pelas visualizacoes diarias do blog (3 em media, sendo que um e meu pai), talvez seja hora de tentar outra abordagem para atrair o estimado publico-leitor.

A primeira coisa que reparei nas ruas de Piter e a quantidade de flores e floristas. Ha lojas grandes dedicadas ao `tema`, e perto da estacao de metro que mais frequento, a Chernychevskaya, ha ate vendedoras que ficam nas portas anunciando as ofertas de flores no microfone. Nao e incomum ver gente andando com ramalhetes ou flores solitarias, imagino que tenha algo a ver com a passagem da primavera na Russia. Outra caracteristica marcante das ruas e o quiosque de frutas. Em todo lugar ha uma vendinha de rua onde uma senhora exibe morangos, cerejas, peras etc. Em geral, sao pequeninos quiosques, como os de chaveiro que vemos nas ruas do Rio. Mas, ha tambem vendedores informais, que colocam vegetais e algumas frutinhas em caixotes na frente de areas movimentadas, mas sao mais raros.

Nao vi supermercados nas area centrais, embora esteja quase certo que eles existam em locais menos densamente povoados da cidade. O que tem muito sao mercados pequenos, alguns funcionando 24 horas, oferecendo uma variedade bem razoavel de enlatados, vegetais, frutas, queijos, bebidas, congelados etc. Aqui ao lado tem um, no qual costumo fazer minhas compras. Uma curiosidade e que os sacos plasticos sao cobrados, e voce deve pedir explicitamente um, caso contrario a caixa nao vai te dar nada e voce vai levar tudo na mao. Nao ha `empacotadores` tambem, o sujeito tem que sair do caixa com a cestinha e o saco, e fazer sua trouxa numa bancada, para nao atrapalhar o fluxo (e uma boa ideia, os mercados do Rio deveriam adotar).Tambem nao vi mercados de rua, embora sei que ao norte existe um classico mercado de pulgas ao estilo da nossa feira da Praca XV, embora bem mais popular e ferrado. Pela descricao, nao me animei muito a ir nao.

O que se vende muito pelas ruas tambem e sorvete. Em toda area central, ha vendedores com carrinhos oferecendo agua, suco, refrigerantes e sorvete, que e um produto consumido com voracidade pela populacao local. Nas duas entradas do meu parque habitual, sempre ha filas para os quiosques de sorvete, seja qual for a hora do dia.

O metro merecia um post a parte. Como ja disse, as estacoes sao bonitas, embora nao estejam no nivel de grandiosidade das moscovitas (estas foram chamadas por Stalin de `palacios do povo`). O que impressiona sao as longas distancias dentro das estacoes, seja para baldeacao, seja para simplesmente sair do buraco, ja que todas sao bem profundas. A estacao proxima ao Hermitage, por exemplo, tem uma escada rolante tao monumental que, no meio do caminho, voce nao consegue ver nem a entrada, nem a saida dela. Ao final de cada escada rolante, ha uma cabine com uma mulher vestida de terninho azul e quepe vermelho. Ela e responsavel por manter a ordem nas escadas, e hoje mesmo vi uma advertindo um papai que insistia em botar o filho no ombro na escada rolante. Levou um chamado estilo URSS decada de 30, por microfone, para todo mundo ouvir. A entrada e a saida dos vagoes sao bem organizadas, o povo so comeca a entrar depois que a ultima pessoa sai, e velhinhos em geral conseguem sentar-se com facilidade, pois geral da lugar.

Em quase todo ambiente fechado pode-se fumar, embora em muitos haja areas separadas. Hoje estive em um café no qual TODAS as mesas eram para fumantes, e TODAS as pessoas fumavam. Assim fica dificil eu reduzir, caramba…Entretanto, nas ruas nao se ve guimbas de cigarro no chao. O povo espera chegar uma lixeira de rua e taca la.

O que e como se come por aqui: a opcao mais barata sao as chamadas stalovaias, que sao uma especie de restaurante popular. O sujeito vai no balcao, pega uma bandeja e escolhe a comida, sendo servido na hora por funcionarias. Basicamente, um refeitorio universitario com comida de melhor qualidade. Entretanto, o rango nao e la grandes coisas. Na Fortaleza, eu comi nesse estilo, e minha lembranca e a cerveja apenas. Outra opcao sao os menus do dia. Numa area cara da cidade, comi salada, sopa, prato principal e cha por 300 rublos (algo em torno de 20 reais).

O que sobrevive do passado comunista pelas ruas? Talvez as velhinhas vendendo verduras nos caixotes e os quiosques com cigarros, agua, revistas e outras utilidades basicas. Uma certa organizacao do fluxo humano tambem, bem como a ausencia de ocupacao informal da area urbana. No caso de construcoes, vi pouca coisa. Pelo que entendi, boa parte da arquitetura sovietica foi feita fora da area central, que ja era densamente construida. Assim, mansoes e palacios foram transformados em escritorios do Partido Comunista, ou mesmo sedes de sindicatos e museus. Para voces terem uma ideia, a Catedral de Sao Isaac (ver post anterior) foi ocupada na primeira metade da decada de 1930 por um Museu do Ateismo!! Pensando bem, isso faz sentido, se estamos falando do projeto de uma sociedade comunista. O Brasil e que e surreal, afinal o nosso arquiteto mais famoso foi comunista e projetou mais de uma catedral, e nenhum Museu do Ateismo.

Os espacos nos quais a rua realmente `acontece` sao os parques. Sao nessas areas verdes que as pessoas se encontram, deitam, conversam, namoram e passeiam. Todos os que vi (e estive em areas mais afastadas, como no norte) sao bem cuidados e convidativos. Como ja disse, a cidade e rapida, as ruas compridas e largas, e so os turistas parecem flanar por elas despreocupadamente. E claro que durante o periodo das `noites brancas`, a coisa se altera um pouco. E muito comum ver nego com cerveja pelas ruas, em geral garrafas de meio litro, mas no domingo que fiquei ate duas da matina, nao vi bebedeiras homericas nas margens do Neva. So gente bebendo comportadamente.

Bueno, pra finalizar, o POVO. Nao vao falar com voce nem te ajudar nas ruas por livre e espontanea vontade. Os mais velhos raramente falam ingles, e podem se irritar se voce tiver dificuldade de se comunicar minimamente em mercados, metros etc. Ninguem e `extrovertido` no sentido brasileiro-carioca do termo, o que tem um lado bom, ja que ninguem tambem e folgado ou por demais expansivo. Hostilidade, nao senti, talvez so certa impaciencia, mas algo bem localizado. O que o brasileiro certamente vai estranhar e a `mascara facial` russa. A primeira `face` que o sujeito te apresenta e sempre seria, sem sorriso, exalando um certo tedio existencial profundo, ou talvez um desdem pela sua existencia no mundo. Mas, e so nao se assustar que da tudo bem.

Bueno, amanha e o ultimo dia completo aqui. Confesso que nao sei ainda o que vou fazer, talvez algumas compras, tipo lembrancas e souvenirs. E, possivelmente, um jantar ao grande estilo no `Idiota`, se os rublos permitirem.   

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Dia 7 - O Idiota sempre salva




Dia 7 – O Idiota sempre salva

Meus amigos, depois da jornada noite branca adentro de domingo, queria dormir ate quase meio-dia. Contudo, as nove horas minha anfitria Elena ligou, para acertar alguns detalhes domesticos. De pe e com sono, olhei pra fora e vi que chovia sem parar. Confesso que deu mais preguica ainda, e so fui sair de casa quase meio-dia. Meu destino era a Mansao Rumyantsev, outrora a luxuosa residencia do tal Conde Rumyantsev, e hoje um museu que abriga exposicoes sobre a historia da cidade.

Chovia MUITO. Diante disso, e da bolha que feria meu pe, combinei o metro com onibus, para diminuir os deslocamentos. Claro que nao adiantou nada, ja que fiquei rodando como um peru doido ate achar o ponto correto. Aqui, voce paga a passagem para uma bilheteira, que fica sentada junto com os passageiros e se movimenta pelo interior do onibus para coletar a grana. E de praxe que as pessoas deem dinheiro uns para os outros numa `corrente`, pois se o buzum esta lotado e impossivel para a velhinha chegar la atras.

Saltei QUASE no ponto certo, e devo dizer que continuava a chover MUITO. Cheguei na mansao, e estava bem vazia. Maravilha…fui direto para a exposicao permanente sobre a chamada Grande Guerra Patriotica e o Cerco a Leningrado. Trocando em miudos, era uma exposicao sobre o cotidiano da populacao da cidade durante o cerco nazista na II Guerra, um episodio marcante do conflito, dada a tenaz resistencia dos russos.

A exposicao e emocionante. Estao la cartoes de racionamento, diarios de criancas, fotos da destruicao, mapas, uniformes velhos, cartazes de propaganda, fotos dos atiradores de elite do Exercito Vermelho (os lendarios snippers comunistas abateram centenas de nazistas) e diversos registros que procuram propagar a memoria da resistencia sovietica no periodo. Eu conhecia o episodio, que atraiu atencao do mundo todo na epoca, mas aprender um pouco mais sobre o cotidiano do povo no periodo foi fodastico. Ainda pude ver outras exposicoes sobre a vida durante os anos de 1920-1930, que tambem eram interessantes, mas nao cativavam tanto como aquela sobre a II Guerra.

Com espirito patriotico elevado (mesmo que de emprestimo), me dirigi para a Catedral de Sao Isaac, uma construcao colossal atras da Praca dos Dezembristas. Chovia MUITO, como eu ja disse. E ai me veio a suprema ideia de jerico, motivada pela burrice e pela falta de informacao. Eu tinha a opcao de entrar no `museu` da Catedral ou nas `colunas`, ou em ambos. Como a fome apertava, escolhi `colunas`, imaginando que elas dariam acesso a uma visao mais ampla do interior da Catedral. ERREI FEIO, ERREI RUDE. Primeiro, uma porra de escada estreita completamente proibitiva para fumantes, mesmo que moderados, e povoada por familias tirando fotos, o que parava sempre a fila. Chegando la em cima, me descobri ao ar livre, no topo da Catedral. As `colunas` devem ser um lugar sensacional para se ver a cidade ao fim da tarde, com uma brisa solar leve batendo. Com vento e chuva, senti-me como um pobre sovietico no Cerco a Leningrado, passando frio e sofrendo. Dei uma volta protocolar, e logo comecei a descida, tambem interminavel. Agora tinha uma ideia fixa: COMER NO IDIOTA.

O `Idiot`, como informei no post anterior, e um restaurante acolhedor e tranquilo nas margens de um canal menor. Pra la eu me dirigi, e novamente fui recompensado. A truta nem estava tao especial, mas a conjuncao da comida, mais a vodka de graca, o meio litro de cerveja russa, o café e a liberdade para fumar um cigarrito me deixaram leve e seco. E resolvi caprichar na sobremesa, pedindo o `sonho do Idiota`: sorvete com creme azedo (tradicao aqui), morangos e syrup. Sensacional, sensacional…

E assim voltei para ca, tao disposto que resolvi encarar o metro na hora do rush. A vodka da coragem, amigos. E nao me abati, mesmo com as interminaveis baldeacoes e aquela classica caminhada de 20 minutos da estacao Chernychevskaya ate o predio, passando por dentro do parque enlameado. De tudo que vi, o lugar que levo como meu canto aqui e esse restaurante, que pela segunda vez me levantou a moral. Se a escassez de rublos na carteira me obrigar a fazer opcoes nos dois proximos dias, o Idiota ja esta garantido. 

PS: Para esclarecer os diferentes nomes da cidade: De 1703 ate 1914, SAO PETERSBURGO; De 1914 ate 1924, PETROGRADO; De 1924 ate 1991, LENIGRADO; De 1991 ate hoje, SAO PETERSBURGO de novo. So pra confudir mais, continua a existir LENINGRADO, e uma regiao administrativa federal, tipo o `estado` na qual se situa Piter. Ao que tudo indica, a galera fora daqui nao quis tirar o nome de Lenin da regiao como um todo...  

domingo, 30 de junho de 2013

Dia 6 - Dentro da noite branca

 Meus amigos, que noite! Como havia dito, domingo nao faria nada durante o dia, como forma de descansar um pouco depois de tanta camelagem sob o sol do Norte. Dito e feito, fiquei de bobeira em casa, lendo e vendo noticias do Brasil. So sai pra dar uma corrida no parque e ver a russada curtindo o domingo de sol. Ao final da tarde, comecei a me preparar para o meu programa noturno, cujo roteiro era: bale no Mariinsky, jantar, e caminhada noturna pelas margens do Rio Neva.

Tudo comecou bem (quando o sujeito escreve isso, e que algo vai dar errado no final da historia, ne?), pois o sol sumiu nas nuvens e pude andar calmamente ate o metro na minha beca especial (pois e, achei que a ocasiao pedia um Joazinho mais formal, com blazer, sapato e camisa social). Saltei na estacao mais proxima do teatro, e fiz a opcao de ir a pe, ja que nao havia calor. Ok, so que no caminho uma das pontes que deveria atravessar estava fechada para filmagem, entao tive que dar uma volta bem maior do que prevista. Isso me deixou nervoso, neurotico e angustiado, que sao tres condicoes bem comuns para os que me conhecem. Claro que me perdi, e tive que pedir duas vezes orientacoes na rua, ate achar o caminho. Nesta altura, chovia e comecei a correr com medo de perder o horario ou entrar em filas gigantescas. La estava eu, de `conjunto social`, correndo pateticamente sob a chuva de Petersburgo. Ao chegar no Teatro, olhei para o relogio com ansiedade (comum tambem, ces sabem), e ainda faltava uma hora para o inicio do espetaculo!!! Eu sei, eu sei, mas nao consigo evitar...

Entrei no teatro, cujos corredores internos e hall sao bem menos impressionantes do que nosso Municipal. Porem, o auditorio principal e fantastico, ricamente decorado e com uma boca de cena imensa e um belissimo painel. Meu lugar era excelente, seria o equivalente ao balcao nobre no Rio, a esquerda da plateia, proximo dos camarotes.

Eu nao sou um conhecedor de danca (na verdade, conheco bem pouca coisa, mas a gente da um enrolada), devo ter ido a tres bales no maximo. A obra era La Baladyere, bale russo montado pela primeira vez em 1900, com 3 atos e 3 horas de duracao. Lendo o programa, vi que era a estreia de um novo primeiro bailarino, um sujeito chamado Kim Kimi. Mas, quem me chamou a atencao foi a primeira bailarina, uma tal Oxana. O braco dela aberto deve ter uns 2 metros de comprimento, mas ela conseguia se mover com leveza e flexibilidade. Achei a musica excepcional, e o ato final apoteotico, com a representacao de um sonho de um dos personagens e uma coreografia lenta e hipnotica com quase 30 bailarinas em cena.Bonito pra cacete.

Na saida, comecei uma camelagem atras de restaurante. Tinha anotado alguns, mas um ja estava fechado (passava das 23 horas). Depois de dar uma rodada, achei justamente o que tinha achado mais simpatico, o `Idiot`, nomeado assim em homenagem ao livro de Dostoievsky. Extremamente aconchegante, com estantes de livro, mesas pequenas, luz de velas e uma boa area de fumantes (que, na verdade, era a melhor parte do estabelecimento rs). Estava bem vazio, e me ofereceram um copinho de vodka `por conta da casa`. Eu mesmo pedi 2 tacas de Bordeaux, e bati uma massa muito boa. Sai de espirito elevado, e me dirigi para a margem do Rio Neva para assistir as pontes se abrindo na madrugada. Sim, a partir de 1 e 30 da matina as diversas pontes que cruzam o Rio se abrem por um tempo, para a passagem dos navios maiores. Durante o verao, com sol ate mais tarde, e um espetaculo apreciado pela turistada e pelos locais. 

No comeco, foi bem divertido andar meia-noite e meia pelas ruas quase desertas, numa penumbra inusitada, sob um cel azul-escuro. Os predios que via de dia sao todos iluminados, e o cenario e bem impressionante. Vi logo de cara uma das pontes levantadas, quase em frente ao Hermitage, e fui andando para leste pelo rio, na direcao de minha casa. Muita gente fazendo o mesmo pelas margens, familias inteiras, japoneses etc. Parei em frente a Ponte da Trindade e fiquei ali em frente esperando ela `subir`. Acho que esperei quase uns 40 minutos, tirei umas fotos quando ela levantou, e fiquei ali me divertindo com o engarrafamento de barcos lotados de turistas, que costumam gostar de passar por baixo da ponte no momento derradeiro...

Ai comecou a parte mais dificil da noite. Tomei o rumo de casa pela margem do Neva. O plano era ir andando tranquilamente, curtindo a noite branca, ja que o trajeto e longo, como sabem. Porem, fiz isso exatamente no momento em que realmente fica quase escuro (entre 1 e 3 da matina). E, assim que passei a ultima ponte famosa, as ruas ficaram completamente desertas. De repente, me vi andando largas avenidas onde quase nao havia gente, com a `noite branca` ja bem escurecida, e o sapato social apertando o pe. Em dado momento, calculei mal uma esquina e entrei num lugar desconhecido, e tive que consultar o mapa umas 3 vezes ate ver que teria que andar mais do que esperava. E por ruas COMPLETAMENTE vazias e escuras. O sentimento carioca basico bateu, e fui ficando nervoso. O pe doia, mas apertei o passo mesmo assim, andando praticamente no meio das avenidas. Quando vi o parque ao longe, fui ficando mais calmo, mas realmente so relaxei quando vi o predio...

Eu era o unico nesse estado de espirito. Cruzei com familias, criancas, adolescentes bebendo e ate um moleque de 16,17 anos fazendo um jogging naquela hora, numa das avenidas mais desertas das redondezas. Pois e, #RiodeJaneirofeelings... 

Cheguei em casa e vi logo a ferida na planta do pe, produzida por essa longa caminhada noturna, feita com calcado nao apropriado para tal. Deitei a tempo de ver o segundo tempo do jogo do Brasil (alias, que isso hein??). Hoje chove, o pe doi e nao achei guarda-chuva na casa. Vamos ver se terei animo para ir no Museu da Vanguarda Artistica Russa, que me parece legal pacas. Estou comecando a desconfiar que vou precisar de umas ferias das ferias quando retornar ao amado balneario...    


sábado, 29 de junho de 2013

Dia 5 - Solidao em Peterhof ou O Cansaco de Quem Viaja

Meus amigos, eu sei que ninguem gosta de ser `turista`. Todos preferem se imaginar como `viajantes`, gente esperta que viaja pelo Brasil e/ou pelo mundo em busca de experiencias mais autenticas e menos caretas do que os `turistas`. Um bar escondido, o restaurante que nao esta no guia, a `experiencia` que so e acessivel para os que nao viajam com pacotes e sabem mergulhar na cultura local. Bom, deixa eu dizer algo: todo mundo acaba sendo turista. Sentimos fome, cansaco, estranhamento, e, principalmente, nos sentimos exaustos pelo excesso de informacoes, objetos, pessoas e predios. Na nossa cidade, andamos com os sensores desligados, mas, na viagem, estamos o tempo todo alertas, buscando novidades e encantamento. E isso CANSA. E isso ai descreve Joaozinho em Peterhof, o palacio campestre de Pedro I e seus descendentes.

Acordei cedo, pois sabia que seria uma viagem razoavelmente longa. O complexo de palacios e jardins fica num suburbio ao sul de Piter, e e preciso fazer uma combinacao entre metro e onibus, num total de quase uma hora de viagem. E assim eu fui, sem grandes problemas. A entrada e muito bonita, uma alameda central com uma fonte espetacular no meio e, ao final do caminho, a parte frontal do palacio. A esquerda, a entrada para os jardins `de baixo`, que sao uma das grandes atracoes do lugar. Comprei o bilhete, e fiquei ate feliz, pois a bilheteira me perguntou se era russo, ja que me dirigi a ela na lingua nativa. Aqui, todos os museus tem precos mais baratos para locais. Entrei com o sol de 11 da matina batendo forte, e acabei dando uma sorte grande: exatamente nesse horario os chafarizes da espetacular Grande Cascata sao ativados ao som de um hino. O povo adora, e geral levantou os tablets pra fotografar. Alias, percebi que a massa de turistas e basicamente russa neste local. Fiquei andando pelos jardins por um tempo, e o tal cansaco bateu. Era muito sol, era muita gente, era muito calor, e nao havia cidade em volta, so centenas de pessoas batendo perna pelas alamedas, bricando nas fontes com as criancas e tomando sorvete. Logo senti fome, e resolvi comer um blini, iguaria tipica daqui. E basicamente uma panqueca com recheio, e escolhi a de carne moida com molho de alho rs. Tava decente, nada espetacular. Nada que leve carne moida e alho pode dar muito errado, nao? Em seguida, retomei a camelagem e resolvi pagar o ingresso para o Grande Palacio. Ai o negocio pegou.

Primeiro, havia uma fila para comprar os ingressos, que terminava numa area sem sombra. Joaozinho entra e espera uns 40 minutos nela. Depois, havia outra fila, na qual Joazinho tambem esperou quase o mesmo tempo. Eles so deixavam entrar um grupo de cada vez, dada as dimensoes restritas dos corredores internos. Quando finalmente entrei, havia outra fila, desta vez para colocar plasticos nos calcados (nosso Museu Imperial em Petropolis faz a mesma coisa). E, depois, todos se amontoam para outra fila, a partir da qual o `passeio` realmente se inicia. Eu acabei entrando no horario em que as visitas guiadas sao feitas para grupos russos, por isso nao ganhei audio-guia nem acompanhamento especial. Para piorar, eu sempre estava `espremido` entre dois grupos de russos, e me posicionar dentro das salas era complicado paca. Acabou sendo divertido, pois um grupo de brasileiros estava na mesma situacao, e a tentativa deles de tirar uma foto proibida dos interiores do palacio me deu aquela saudade do patropi e de sua gente malandro-agulha... 

O palacio? Espetacular, uma mistura entre aposentos barrocos, ornados em ouro e com decoracao grandiosa e excessiva, com salas mais classicas e `limpas`. Mas, confesso que o cansaco do turista estava batendo forte, e eu so pensava em voltar. Desta vez, quis voltar de barca, que e BEM mais caro, mas evitaria uma longa camelagem suburbana com o sol a pino. E la fui eu pro pier, onde comprei meu bilhete e me dirigi ao local. Porem, ainda iria demorar meia hora. E la estava eu, num sol de rachar coco, sentindo aquela solidao imensa e o cansaco mencionado acima! Vislumbrei uma sombra no final do pier, e pra la me dirigi. Tinha um toco de madeira pequeno, sentei ali, e acendi um cigarro. Imaginem a cena desoladora: Joazinho sentado num toco de madeira no final do pier de Peterhof, suando desgracadamente, a cabeca latejando e as pernas doendo. Amaldicoei a dinastia dos Romanov e desejei a explosao de toda aquela merda. Finalmente, entrei no barco, onde aproveitei para formular um plano final que poderia redimir a solidao. Esse plano deveria envolver tres coisas muito importantes: AGUA, CERVEJA E SOMBRA. E assim fui para o Gosti, restaurante onde tinha estado dias atras comendo um salmao muito bom. E valeu muito a pena. Cerveja `branca` de meio litro, risoto escuro com polvo e agua, alem de sombra e uma rua mais vazia. Essa era a solidao que eu precisava pra me sentir menos esmagado e destruido. Nao economizei um centavo, porque PORRA eu merecia um pouco de boa vida depois de tantas filas e tanto sofrimento...

Voltei feliz pra `casa`, a despeito de ter enfiado o pe em asfalto fresco em plena Avenida Nievsky. Troquei mais dinheiro, e ao chegar no parque aqui ao lado, o ja adorado Tavrichesky, onde o vento bate, os caminhos sao curtos e as arvores fazem muita sombra, aproveitei para tirar a camisa e me juntar aos locais. E la fiquei algum tempo, pegando sol. Desta vez, nao era o sol massacrante de horas atras, nos jardins de Peterhof. Agora, ja era a cidade que conheco um pouco mais, e estava com espirito levantado depois da refeicao e da cerveja (e precisava queimar o torso, que nesta altura esta em franco contraste com o pescoco roxo e a cabeca grande e vermelha). E decidi: domingo, CHEGA de camelagem, palacios e museus. Tenho um ingresso para o Teatro Mariinsky, para uma apresentacao de bale russo. Esse sera o unico programa fixo, e pretendo arremata-lo com um jantar em qualquer lugar onde haja mesa livre, bebida gelada e boa comida. Afinal, se e pra ser solitario, que seja em grande estilo...         
                

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Dia 4 - Poroes e ruas

Meus amigos, hoje ate acordei animado, pois olhei para fora e estava nublado. Para melhorar a situacao, o simpatico termometro da cozinha acusava uns 21 graus. Com felicidade indescritivel, coloquei uma calca e sai na rua. Meu destino: Fortaleza de Pedro e Paulo, a fortificacao criada por Pedro O Grande para marcar a fundacao de Petersburgo, que se localiza num territorio estrategico arrancado em uma guerra com os suecos. 

La estavam as excursoes e as hordas, mas como o espaco e aberto, dava pra driblar geral. Primeira parada foi na Catedral de mesmo nome, uma perola do barroco deles. Muito ouro, religiosidade derramada e iconografia de profetas e santos, sempre vinculada as figuras da familia real. Nessa Igreja estao enterrados varios membros da dinastia Romanov (la esta o proprio tumulo de Pedro I), e algumas tumbas de marmore sao realmente muito bonitas. Ha uma capela anexa pra homenagear o ultimo czar e sua familia, mortos depois da Revolucao de 17.

Andando alguns metros em diante, entrei na Prisao Trubetskoy. Foram nas dezenas de celas dessa prisao que o czarismo encarcerou boa parte dos seus presos politicos. Enquanto andava pelas galerias e celas, lia os retratos, nomes e biografias de varios revolucionarios russos da segunda metade do XIX. Basicamente homens e mulheres (muitas mulheres) jovens, que faziam parte do movimento narodnik (o populismo russo), que pregava a ida dos intelectuais ao povo. Essa molecada se embrenhou no mundo rural russo para `aprender` com os homens comuns as virtudes da vida comunitaria, e ajuda-los a fazer a revolucao (e claro que os camponios nada queriam com aquela juventude urbana e intelectualizada). A decada de 1870 foi momento fundamental desse movimento, que foi estudado com brilhantismo por um italiano chamado Franco Venturi, num livro nao-traduzido para portugues chamado Il Populismo Ruso. Na decada de 1880, a rapaziada partiu para acao violenta, e se tornaram os pioneiros do terrorismo moderno. Grupos como `Vontade do Povo` e `Terra e Liberdade` conduziram acoes de sabotagem e assassinato, e o proprio czar Alexandre II foi morto num desses atos (lembram do post em que falei sobre a Catedral do SALVADOR DO SANGUE DERRAMADO?). Na prisao Trubetskoy, varios foram encarcerados e vigiados 24 horas por dia. Havia castigos fisicos, solitaria, tudo aquilo que conhecemos.Bolcheviques por la passaram tambem, como Maximo Gorky, e ate mesmo Trotsky (tirei foto, Guilherme Leite).

ALIAS, o que os bolches fizeram quando tomaram o poder em 1917? Fecharam a prisao. MAS, nao por muito tempo, pois em 1918 o chamado Terror Vermelho comecou a enfiar os presos politicos la dentro. Desta vez, duques, generais, mas tambem cidadaos comuns da cidade. Ate recentemente, arqueologos estavam descobrindo resquicios de fossas coletivas, datadas exatamente do periodo 1918-1922. Isso tudo me fez pensar em como os `dois tempos` da cidade por vezes se conectam. O proprio irmao de Lenin foi preso em Trubetskoy, mas isso nao impediu que o regime sovietico utilizasse essa Bastilha czarista para organizar sua propria repressao. So pra reafirmar esta ligacao: no alto da Igreja, ha um relogio muito bonito, que duas vezes por dia executava o Hino czarista. A partir de 1917, ele passou a executar o Hino sovietico. No mesmo lugar, no mesmo horario. So mudava a musica.

Como se ve, hoje foi dia de perambular pelos poroes de Petersburgo. E resolvi arrematar esse passeio alegre e pra cima com uma visita ao sombrio Museu da Historia Politica Russa. Demorei uma meia hora pra achar, eu realmente tenho problemas graves com mapas em geral, ou com a propria concepcao de geografia, nao sei. Infelizmente, isso me fez perder tempo precioso, pois o museu fechava 18 horas. La chegando, entrei direto nas salas com fotos, arquivos e documentos do periodo sovietico. NAO TENHO PALAVRAS para descrever o que e aquilo para alguem interessado na historia da revolucao. Na verdade, tenho palavras: sao varios mostruarios preciosos, com relatorios e declaracoes originais, fotos de reunioes do Politburo, quepes, uniformes, posters de propaganda etc. Os textos eram bem criticos, descrevendo com precisao os mecanismos de repressao politica, a coletivizacao forcada etc. Em uma das salas, apertei um botaozinho pra ouvir um discurso original da Krupskaya nos anos 30...subindo, voce segue a historia pos-Stalin, ate o fim da URSS. Vale muito a pena, e e um museu vazio, ja que nao creio que muitos turistas tenham um grande interesse em fotos de comissarios regionais do PCUS e esse tipo de coisa. 

Saindo de la, desci calmamente pela Ponte da Trindade, a maior da cidade, bonita demais. Tirei uma foto, quase atropelei uma moca, quase fui atropelado por um skate, e me deparei com o Jardim de Verao de Pedro. Maneiro isso, ne? O sujeito ta de saco cheio com o pais, resolve fundar uma cidade moderna e faz pra si um jardinzinho, tipo um puxadinho perto do palacio. Obviamente, o negocio e sensacional, no modelo dos grandes jardins franceses do XVIII. E la finalmente meu espirito saiu um pouco dos poroes e flutou pelas ruas da cidade. Enquanto descansava num dos bancos observando as pessoas passarem, organizei meus pensamentos sobre as pessoas, a comida e a vida aqui, como eu prometera fazer no post anterior.

Os russos nao sao simpaticos, mas nao sao grosseiros. Niguem vai puxar papo contigo ou sorrir pra voce de bobeira, mas em nenhum momento fui hostilizado ou mal tratado. Eles podem ser bruscos, eu diria. Mais de uma vez, olharam com impaciencia pra mim, como se fosse uma obrigacao dominar essa lingua bizarra que por vezes povoa meus pesadelos com suas MALDITAS declinacoes. Por outro lado, eles gostam e curtem demais o verao e a vida na rua. Os parques estao sempre cheios de gente jogada na grama, tomando sol, cerveja e fazendo exercicio. Tambem vejo muitos quiosques vendendo frutas, sempre cuidados por vovozinhas que ficam sentadinhas la dentro, oferecendo cerejas e morangos a quilo. So nao tem mais desses quiosques do que farmacias e mercados 24 horas. 

Comida, alias, nao esta sendo um grande problema. Hoje fui num restaurante A QUILO dentro da Fortaleza. Fui apontando as coisas e pegando. Na hora da bebida, pedi  cerveja, que me foi entregue num copao de meio litro. MEIO LITRO. E claro que era muita comida. Tinha o borsch, desta vez gelado. Tinha tambem arroz com uma especie de panqueca de ovo com frango, e uma salada. A panqueca estava deliciosa, mas decidi que nao vou com a cara do borsch, por um motivo simples. Nao tenho grandes paixoes por beterraba. Alias, alguem tem grandes paixoes por beterraba?? Aqui em casa, tenho comido salame, caviar, mel, pao e biscoito, alem de iogurte. Convenhamos, nao e vida de Imperador, mas esta longe de ser a dieta de um resistente em Leningrado durante o cerco nazista.  

As mulheres. Sim, elas sao muito bonitas. E estilosas, algo facilitado pelo biotipo anguloso e esguio. No verao, so usam saias, minissaias, vestidos, shortinhos de cintura alta etc. E, na maior parte das vezes, usam bem, com nocao. De modo geral, elas tem um aspecto meio selvagem, diferente daquele olhar languido brasileiro. Ou olham de cima, com desprezo, ou olham direto no teu olho - para depois, olhar novamente com desprezo.

De modo geral, a vida e corrida, e quase ninguem flana de bobeira. A geografia da cidade nao ajuda, pois, como disse, e uma urbe planejada, com grandes avenidas, pracas gigantescas, e predios monumentais para exibicao de poder imperial. E uma cidade-Imperio, e os `suditos` sao sempre pequenos nela. Por isso reclamo tanto de andar no sol aqui. Dobrar uma rua e depois seguir nela ate outra e um processo que pode levar 20 minutos, por conta da largura e comprimento das grandes avenidas. 

Mas, eles acabam se ajeitando. Os parques funcionam como areas de alivio,e o meu aqui perto de casa ja me e familiar. Tanto que, ao entrar nele algumas horas atras, voltando do passeio, resolvi me juntar aos nativos e comprar um sorvete no quiosque. Coisa de 2 reais, e sai com uma casquinha de chocolate, flanando pelo caminho principal enquanto via a multidao branca estendida na relva, como se na praia estivessem. Mesmo na mais imperial das cidades as pessoas conseguem arranjar espacos de intimidade e descanso... 

Falando em Imperio, amanha e dia de nobreza. To pensando em ir para Peterhof, especie de Palacio de Versalhes local. Mas, ainda nao estou decidido. Ainda tem uns poroes ai que quero checar...