Dia 8 - Cenas da rua de Piter
Meus
amigos, hoje foi um dia dedicado a camelagem cultural. Andei muito ate achar o
Museu da Vanguarda de Sao Petersburgo (que, na verdade, tem um nome
algo exagerado), e depois dei um pulo na casa de Dostoievsky (na verdade, ele
morou la 3 anos apenas. Durante sua vida inteira, morou em mais de 20 lugares,
pois estava sempre devendo dinheiro). Foi bem legal, em especial a
casa-memorial, que tinha um audio-guia excelente para acompanhar a visita, mas
hoje gostaria de escrever observacoes mais gerais sobre o que vi pelas ruas
daqui. A julgar pelas visualizacoes diarias do blog (3 em media, sendo que um e
meu pai), talvez seja hora de tentar outra abordagem para atrair o estimado
publico-leitor.
A primeira
coisa que reparei nas ruas de Piter e a quantidade de flores e floristas. Ha
lojas grandes dedicadas ao `tema`, e perto da estacao de metro que mais
frequento, a Chernychevskaya, ha ate vendedoras que ficam nas portas anunciando
as ofertas de flores no microfone. Nao e incomum ver gente andando com
ramalhetes ou flores solitarias, imagino que tenha algo a ver com a passagem da
primavera na Russia.
Outra caracteristica marcante das ruas e o quiosque de frutas. Em todo
lugar ha uma vendinha de rua onde uma senhora exibe morangos, cerejas, peras
etc. Em geral, sao pequeninos quiosques, como os
de chaveiro que vemos nas ruas do Rio. Mas, ha
tambem vendedores informais, que colocam vegetais e algumas frutinhas em
caixotes na frente de areas movimentadas, mas sao mais raros.
Nao vi
supermercados nas area centrais, embora esteja quase certo que eles existam em
locais menos densamente povoados da cidade. O que tem muito sao mercados
pequenos, alguns funcionando 24 horas, oferecendo uma variedade bem razoavel de
enlatados, vegetais, frutas, queijos, bebidas, congelados etc. Aqui ao lado tem
um, no qual costumo fazer minhas compras. Uma curiosidade e que os sacos
plasticos sao cobrados, e voce deve pedir explicitamente um, caso contrario a
caixa nao vai te dar nada e voce vai levar tudo na mao. Nao ha `empacotadores`
tambem, o sujeito tem que sair do caixa com a cestinha e o saco, e fazer sua
trouxa numa bancada, para nao atrapalhar o fluxo (e uma boa ideia, os mercados
do Rio deveriam adotar).Tambem nao
vi mercados de rua, embora sei que ao norte existe um classico mercado de
pulgas ao estilo da nossa feira da Praca XV, embora bem mais popular e ferrado.
Pela descricao, nao me animei muito a ir nao.
O que se
vende muito pelas ruas tambem e sorvete. Em toda area central, ha vendedores
com carrinhos oferecendo agua, suco, refrigerantes e sorvete, que e um produto
consumido com voracidade pela populacao local. Nas duas entradas do meu parque
habitual, sempre ha filas para os quiosques de sorvete, seja qual for a hora do
dia.
O metro
merecia um post a parte. Como
ja disse, as estacoes sao bonitas, embora nao estejam no nivel de grandiosidade
das moscovitas (estas foram chamadas por Stalin de `palacios do povo`). O que
impressiona sao as longas distancias dentro das estacoes, seja para baldeacao,
seja para simplesmente sair do buraco, ja que todas sao bem profundas. A
estacao proxima ao Hermitage, por exemplo, tem uma escada rolante tao
monumental que, no meio do caminho, voce nao consegue ver nem a entrada, nem a
saida dela. Ao final de cada escada rolante, ha uma cabine com uma mulher
vestida de terninho azul e quepe vermelho. Ela e responsavel por manter a ordem
nas escadas, e hoje mesmo vi uma advertindo um papai que insistia em botar o
filho no ombro na escada rolante. Levou um chamado estilo URSS decada de 30,
por microfone, para todo mundo ouvir. A entrada e a saida dos vagoes sao bem
organizadas, o povo so comeca a entrar depois que a ultima pessoa sai, e
velhinhos em geral conseguem sentar-se com facilidade, pois geral da lugar.
Em quase
todo ambiente fechado pode-se fumar, embora em muitos haja areas separadas.
Hoje estive em um café no qual TODAS as mesas eram para fumantes, e TODAS as
pessoas fumavam. Assim fica dificil eu reduzir, caramba…Entretanto, nas ruas
nao se ve guimbas de cigarro no chao. O povo espera chegar uma lixeira de rua e
taca la.
O que e como se come por aqui: a
opcao mais barata sao as chamadas stalovaias, que sao uma especie de
restaurante popular. O sujeito vai no balcao, pega uma bandeja e escolhe a
comida, sendo servido na hora por funcionarias. Basicamente, um refeitorio
universitario com comida de melhor qualidade. Entretanto, o rango nao e la
grandes coisas. Na Fortaleza, eu comi nesse estilo, e minha lembranca e a
cerveja apenas. Outra opcao sao os menus do dia. Numa area cara da cidade, comi
salada, sopa, prato
principal e cha por 300 rublos (algo em torno de 20 reais).
O que
sobrevive do passado comunista pelas ruas? Talvez as velhinhas vendendo
verduras nos caixotes e os quiosques com cigarros, agua, revistas e outras
utilidades basicas. Uma certa organizacao do fluxo humano tambem, bem como a ausencia de ocupacao informal da area urbana. No caso de
construcoes, vi pouca coisa. Pelo que entendi, boa parte da arquitetura sovietica
foi feita fora da area central, que ja era densamente construida. Assim, mansoes
e palacios foram transformados em escritorios do Partido Comunista, ou mesmo
sedes de sindicatos e museus. Para voces terem
uma ideia, a Catedral de Sao Isaac (ver post anterior) foi ocupada na primeira
metade da decada de 1930 por um Museu do Ateismo!! Pensando bem, isso faz
sentido, se estamos falando do projeto de uma sociedade comunista. O Brasil e
que e surreal, afinal o nosso arquiteto mais famoso foi comunista e projetou
mais de uma catedral, e nenhum Museu do Ateismo.
Os espacos
nos quais a rua realmente `acontece` sao os parques. Sao nessas areas verdes
que as pessoas se encontram, deitam, conversam, namoram e passeiam. Todos os
que vi (e estive em areas mais afastadas, como
no norte) sao bem cuidados e convidativos. Como ja disse, a cidade e rapida, as ruas
compridas e largas, e so os turistas parecem flanar por elas
despreocupadamente. E claro que durante o periodo das `noites brancas`, a coisa
se altera um pouco. E muito comum ver nego com cerveja pelas ruas, em geral
garrafas de meio litro, mas no domingo que fiquei ate duas da matina, nao vi
bebedeiras homericas nas margens do Neva. So
gente bebendo comportadamente.
Bueno, pra
finalizar, o POVO. Nao vao falar com voce nem te ajudar nas ruas por livre e
espontanea vontade. Os mais velhos raramente falam ingles, e podem se irritar
se voce tiver dificuldade de se comunicar minimamente em mercados, metros etc.
Ninguem e `extrovertido` no sentido brasileiro-carioca do termo, o que tem um
lado bom, ja que ninguem tambem e folgado ou por demais expansivo. Hostilidade,
nao senti, talvez so certa impaciencia, mas algo bem localizado. O que o
brasileiro certamente vai estranhar e a `mascara facial` russa. A primeira `face`
que o sujeito te apresenta e sempre seria, sem sorriso, exalando um certo tedio
existencial profundo, ou talvez um desdem pela sua existencia no mundo. Mas, e
so nao se assustar que da tudo bem.
Bueno,
amanha e o ultimo dia completo aqui. Confesso que nao sei ainda o que vou
fazer, talvez algumas compras, tipo lembrancas e souvenirs. E, possivelmente,
um jantar ao grande estilo no `Idiota`, se os rublos permitirem.
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