terça-feira, 25 de junho de 2013

Dia 1 - Noites brancas, dias quentes

Leningrado cidade-heroina (vao desculpar a acentuacao). Essa foi a primeira frase em russo que li, quando o pequeno aviao da Air France aterrisou em Polkhovo, aeroporto de Piter. Pois e, estava ali a primeira lembranca de que esta cidade tem dois tempos: um imperial, religioso e nacionalista, e outro socialista, ateu e ... nacionalista tambem. Afinal, a referencia ali era aos tempos de resistencia russa na Segunda Guerra Mundial.

Passando pela imigracao e depois de so sacar dinheiro no quinto caixa eletronico (era o ultimo, caso nao conseguisse, nao teria como pegar taxi, pois nao tinha casa de cambio), finalmente entrei no carro que me levou para dentro da famosa noite branca. Eram 23 e 30. 

Sim, a noite branca e linda. Era quase meia-noite, mas no horizonte a cor era violeta e vermelha, e havia um azul ja escuro no ceu. Nas ruas, muita gente passeando, saindo das compras etc. Porem, a noite nao e totalmente ausente. La por uma da manha, realmente fica mais escuro e da pra dormir, embora o ceu nao fique preto nunca. E como se o ceu do Rio passasse das 19 horas para as 5 da manha direto, deu pra entender? Fica aquela cor meio palida e sombreada, que Dostoievsky consagrou no seu livro "Noite Brancas". 

Fui recebido na rua por Elena Pavlova, que estava com medo de eu nao achar a entrada do predio. O medo dela era correto, pois o predio esta em obras, com andaimes e telas cobrindo a fachada. Alem disso, eu NUNCA encontraria o segundo portao. Segundo portao, perguntam os amigos que tiveram paciencia suficiente para atravessar o cromatico paragrafo acima? Yes. Como pude perceber, boa parte dos edificios aqui sao como condominos. Acessa-se eles por um portao principal, depois entra-se num patio comum, e em cada extremidade ha outros portoes para acessar as escadas e os apartamentos. O segundo portao da casa de Elena era uma grande porta de ferro, que dava passagem para uma escada sinistra, com fiacao a mostra e no "cimento". La dentro, primeira providencia e tirar os sapatos e calcar um chinelo/pantufa (tinha um reservado para mim). Meia-noite, e comi um borsch, que nada mais e do que uma sopa de repolho ou beterraba ou vegetais, muito comum aqui. E uma cervejinha pra rebater. 

Dia claro, 8 da matina, hora de fazer o registro oficial. Sim, todo turista tem que se registrar junto ao Estado. Como sou hospede de Elena, la foi ela nos correios pegar uns 45 formularios para preencher. A funcionaria nao foi muito solicita (uma tradicao aqui, segundo Elena. Russia Americana, pensei eu), e ela teve que voltar para checar na internet o endereco para onde teria que enviar os formularios. Depois de tudo feito, eu era um gringo registrado! E Elena me deixou, pois foi pegar o onibus para Estonia, onde trabalha seu marido, o Slav, e onde ela vai fazer um pos-doc. Daqui ate la, sao so cinco horas de onibus. 

Sozinho na cidade, parti pro mundo. E o mundo era quente, MUITO quente. Mulheres de vestidos e saias, homens de bermudas e chinelos, e Joao camelando de jeans. Foi duro, meus amigos, mas valeu muito. A casa aqui fica na parte leste do centro, uma area um pouquinho distante das grandes atracoes da cidade. Vejam no mapa o jardim a direita, onde ficam edificios que foram escritorios do poder sovietico depois de 1917. Puxem o mapa para esquerda, e ha outro parte, bem proximo, onde pretendo dar uma corridinha amanha. E, mais para esquerda ainda, vao se deparar um com um rio, que cruzei duas vezes hoje. E ali que comeca a parte mais central e historica. Mas, essa localizacao foi boa para eu dar uma caminhada sem rumo ate o Rio Neva, e aproveitar para ver o lendario Cruzador Aurora do outro lado, estacionado nas aguas do rio (Guilherme Leite pira). 

A cidade e cortada por largas avenidas e bulevares (lembrem, o neoclassico domina, por conta do periodo em que foi construida. Nao e uma cidade medieval), o que torna a andanca um pouco custosa no calor. Meio dia eu ja estava pedindo agua, ou melhor, CERVEJA. E la fui almocar um bom file de porco com um copo obsceno de cerveja, que para eles e refresco. Dei um pulo na Catedral de Kazan, construida em 1812, quando o general Kutuzov fez uma fervorosa oracao para Nossa Senhora de Kazan ajudar os russos a derrotarem a invasao napoleonica. Ajudou pra caramba, como se sabe. La dentro da Igreja, uma grande fila para os fieis beijarem o quadro com o icone de Nossa Senhora de Kazan. Imperio e cristianismo, meus caros. Roma se foi ha muito tempo, mas o Oriente ortodoxo permaneceu juntando as duas coisas...

Depois, fui para a Catedral do SALVADOR DO SANGUE DERRAMADO. Sim, e este o nome. Como nao entrar num lugar com nome de disco de banda de doom metal (em ingles e mais maneiro, SPILLED BLOOD)? O nome, alias, e por conta do atentado sofrido pelo czar Alexandre II em 1881, quando os anarquistas do Vontade do Povo o mataram com uma bomba. Para homenagear o falecido, Alexandre III mandou erguer uma catedral que de forma muito habil vincula o martirio de Cristo ao martirio de Alexandre. La dentro, TODAS as paredes sao revestidas de mosaicos com imagens biblicas e referencias ao czar. Cristianismo e Imperio, de novo. Durante o periodo sovietico, nego usou o espaco ate pra guardar cereais...

O calor era tao forte que quase dormi na praca, do mesmo modo que aquele personagem da ja classica musica de Bruno e Marrone. Era uma praca bonita, perto da lendaria Avenida Nievsky, cenario de contos de Gogol e Dostoievsky, e hoje eixo nervoso da vida comercial da cidade. Tinha um banco na sombra, eu sentei, e a cerveja gigante fez seu efeito, levando-me a alguns sonhos bizarros e a uns minutos de cabeca caindo no peito. Ao meu lado, um casal de idosos russos conversava e olhava os pombos. Bucolica a cena, nao?

Refeito, tomei o caminho de volta. E tome caminho, pois resolvi voltar tudo andando, o que levou quase uma hora. Rapida passadinha no mercado, so pra comprar o basico: caviar, cerveja, suco, salame, mel e outras coisas baratas necessarias para sobrevivencia. Sao 19 horas aqui, e realmente nao tenho folego pra camelar mais. No maximo, uma passeada em busca de um bar mais tarde para ver a agitacao das tais noites brancas. Pois, pelo visto, amanha tambem sera quente. E com filas, pois vou ao Hermitage, com o intuito de la passar todo o dia, junto as multidoes que invadem Piter nessa epoca do ano...       

Nenhum comentário:

Postar um comentário